quinta-feira, 28 de maio de 2015

REUNIDOS EM TORNO DO SENHOR JESUS

1 Coríntios 14


Houve uma noite em que o Senhor Jesus reuniu em torno de si um grande número de pessoas. Na verdade, isso era frequente no seu ministério terreno, então, não haveria nada demais nisso, a não ser pelo fato de que essa noite foi especialmente diferente, porque essa é a noite em que Judas Iscariotes o traiu. Desde a prisão efetuada no Getsêmani, tendo compreendido que Jesus não reagiria, todos os seus companheiros o abandonaram. Então, completamente só, a reunião em torno de Cristo assumiu aspectos bem distintos do que Ele havia experimentado até ali. Jesus tinha muito prestígio e reunia multidões durante o dia, quando todos podiam vê-lo. Mas aquele grupo não queria que Seus admiradores vissem o que eles estavam prestes a realizar, e, por isso, orquestraram um plano perverso para ser executado na madrugada.
Muita gente se reuniu em torno de Jesus naquela noite, com o propósito de escarnecê-lo. Primeiro, o Sinédrio. Os líderes religiosos queriam vê-lo, mas não para adorá-lo; queriam acusá-lo falsamente, esbofeteá-lo, e demonstrar todo o seu desprezo. Encaminharam-no, então, a Pôncio Pilatos, que o interrogou. Ele também teve a sua oportunidade de estar com o Rei dos reis. Mas não reconheceu a Sua majestade. Enviou-o para Herodes, na corte de fanfarrões. Ali, o Senhor Jesus de novo foi alvo das zombarias. Foi desrespeitado, tratado como um louco varrido. Herodes pedia por um milagre como se quisesse assistir a um espetáculo, e tratou o Pai da Eternidade como a um bufão. Diante da recusa de servir de palhaço, Jesus foi enviado de volta a Pilatos, onde foi submetido à tortura pelos soldados romanos. Apanhou muito, foi chicoteado, chacoteado e achincalhado. Sortearam o seu manto. E já que aquele galileu se considerava o Rei dos judeus, tiveram o cuidado de confeccionar uma coroa de espinhos para encravá-la na cabeça dEle. Pilatos, então, reuniu no pátio externo do seu palácio uma pequena multidão, para apresentar o Cristo humilhado, surrado, e “coroado”! Como se não bastasse, os congregados clamaram pela crucificação. Pilatos não desperdiçou a oportunidade. Havia muita gente reunida ali para ver Jesus, e se era a cruz que eles queriam, então a cruz eles teriam. Como tanta gente, Pilatos, bom político que era, usou a morte de Cristo para seu benefício pessoal.
Diante de públicos distintos, em lugares diferentes, mas sempre uma assembleia cheia de gente curiosa e irreverente: zombeteiros e escarnecedores. Agora, na Via Crucis, caminhando ao lado do condenado, e, em seguida, reunidos em torno da cruz erguida, não para contemplá-la, mas para divertir-se. O Todo-Poderoso era desafiado e ofendido.
É notável, portanto, como é possível se realizar uma reunião em torno de Jesus, congregar pessoas no nome de Jesus, e mesmo assim, não oferecer a Ele a glória que Lhe é devida. Naquela noite, muita gente se aproximou do Senhor, mas não com o fim de se aquietarem aos pés do Mestre, e sim para assistir a um espetáculo de tortura, humilhação, zombaria, e assassinato.
Os cristãos também se reúnem em torno de Cristo! Não para isso, contudo! Ao contrário: reúnem-se para adorá-lo. Desde os eventos da crucificação, os discípulos aprenderam a fazer reuniões. Nos 40 dias em que o Senhor esteve entre eles, ressurreto, os discípulos ainda gozaram da sua companhia, inclusive, fisicamente. Reuniam-se por causa de Cristo, e na companhia de Cristo. Até que, na última reunião, registrada no capítulo 1 de Atos, Cristo, à vista dos discípulos, subiu ao céu entre as nuvens.
Mas as reuniões não cessaram. Agora, sem a presença física do Mestre, mas continuaram a se reunir por causa dEle. Assim como ensinou o Senhor, reuniam-se no nome de Cristo, em torno de Cristo, desfrutando, agora espiritualmente, da presença de Cristo. Segundo o Novo Testamento, passaram a se juntar no Domingo, o primeiro dia da semana, para celebrar a Ceia do Senhor e realizar o que nós chamamos de “culto”. É claro que quando alguém separa um tempo no seu quarto em secreto com o Pai, isso também é culto, mas quando falamos em culto público, referimo-nos aos momentos que se compartilha com outros crentes, sejam nas dependências da Igreja, nos pequenos grupos da Igreja, ou em cultos domésticos. O propósito central do culto é Cristo, a exaltação de Cristo, como testificaram abundantemente os apóstolos. Tudo é dEle, por meio dEle, e para Ele. E não há razão para os crentes se reunirem se não for para adorar o Filho de Deus, e dEle se alimentar.
Como, então, atingir esse propósito da Adoração? O que diz a Bíblia sobre os detalhes do culto? O que devemos ter em mente, o que é prioridade, como devem ser usados os dons espirituais concedidos por Cristo ao seu povo? Enfim, o que ensina a Bíblia sobre o modo como se realiza um culto cristão?
A passagem bíblica mais significativa sobre isso é o capítulo 14 da primeira carta de Paulo aos Coríntios. Na verdade, o apóstolo trata do culto público do capítulo 11 ao 14. Mas é no 14 que encontramos o material mais regulador quanto ao modo geral em que o culto deve ser conduzido de modo a prestar a Deus a verdadeira adoração que Ele requer.
Como, então, o culto público atinge adequadamente o alvo da adoração?
A Igreja alcança o propósito do culto cristão
1. Ao edificaR os salvos!
Quando os crentes se reúnem para o culto cristão, e cada um traz a sua contribuição por meio do dom com que foi agraciado pelo Espírito Santo, tudo deve ser feito para a EDIFICAÇÃO do corpo de Cristo. “Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja.” (14.12). “Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação.” (14.26).
Escrevendo outra carta, aos romanos, sobre o seu grande desejo de visitá-los e conhecê-los, Paulo demonstra o seu desejo de que os dons sirvam para a mútua edificação: “Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados, isto é, para que em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por meio da fé mútua, vossa e minha.” (Rm 1.11-12).
A edificação dos cristãos deve ser um objetivo muito bem estabelecido na mente de quem participa do culto público. Para demonstrar isso, o apóstolo Paulo fala sobre o uso do dom de línguas durante o culto. Ele não proíbe que se fale em outras línguas, como se vê no final do capítulo. Mas ele deixa bastante claro que, se não houver interpretação do que é dito em outra língua, isso não contribui de fato, porque não EDIFICA a ninguém.
O apóstolo ilustra o seu argumento por meio de três figuras:
  • Seria como um instrumento musical que não emite notas afinadas.
  • Ou como um cabo corneteiro que erra o comando no meio da batalha e põe tudo a perder para os seus companheiros.
  • Ou ainda como dois estrangeiros conversando, sem, porém, com que qualquer dos dois compreenda o que diz o outro.

Em todos esses casos, o problema é de comunicação. Paulo alerta sobre a inutilidade em se dizer coisas que ninguém entende: “estareis como se falásseis ao ar” (14.9).
Como, então, fazer com que o meu dom espiritual seja útil aos meus irmãos?
A maneira mais eficaz é lutar contra a tentação da vaidade. Existem crentes que usam os seus dons no culto por puro exibicionismo. O caso mais clássico é justamente o das línguas estranhas, onde é muito difícil não enxergar o interesse em exibir “poderes espirituais” no objetivo de conquistar prestígio entre a irmandade. Essa tentação, porém, não está restrita aos falantes das línguas estranhas. Pela vaidade, macula-se o uso de qualquer dom ou talento. A ordem "Seja tudo feito para edificação” precisa ser um propósito incutido nos nossos corações, do contrário, Cristo não será glorificado.
O pregador pode “falar ao ar” quando, sem caridade, despreza aqueles que não compreendem o seu linguajar, tais como idosos, crianças ou iletrados. Também, quando cai no engano de achar que a sua missão é emocionar seus ouvintes. Isso é possível e aceitável, mas não pode ser esse o alvo de quem ensina.
O cantor pode “falar ao ar” quando, vaidoso, está mais preocupado em exibir seu talento musical do que de garantir que toda a Igreja participe do canto. Instrumentistas podem se equivocar quando não compreendem que a música não é um fim em si mesmo, mas somente outro meio pelo qual a Igreja é edificada. É por essa razão que se vê muitos músicos executando solos durante o louvor, solos que não apontam para a Majestade de Cristo. Nenhum crente é edificado com solos de guitarra, pois eles não são capazes de comunicar o Evangelho. A oração, a pregação, a canção, os sacramentos, tudo que pertence ao culto comunica o Evangelho. Até uma peça teatral cumpriria esse propósito e edificaria os salvos. Mas solos de guitarra e performances sofisticadas na bateria jamais serão capazes de revelar a Cristo.
Aquele que ora, mesmo que no idioma local, pode “falar ao ar” se estiver preocupado em exibir sua inteligência mediante um vocabulário rebuscado e frases indecifráveis. E quem se recusa em fazer orações públicas no culto também perde o foco quando a sua motivação é o medo, porque sequer suporta imaginar que outras pessoas avaliem a sua performance na oração.
Enfim, qualquer um: oficiante, regente, intérprete de libras, operadores de áudio ou datashow, diácono, o presbítero que serve o cálice da Ceia, a professora do culto infantil... qualquer um pode deixar que a vaidade macule o uso do seu dom ou de seu talento na hora do culto, e ficar como se falasse ao ar, quando não compreende que a contribuição de cada crente deve estar voltada para servir aos demais, e assim a edificação fica prejudicada. Todos os dons devem ser utilizados para a edificação da Igreja.
A Igreja alcança o propósito do culto cristão
2. ao evangelizar os não-salvos!
É verdade que seria um grande erro programar e realizar tudo no culto pensando nos visitantes. Mas seria outro erro se os ignorássemos completamente. O culto público também serve para a evangelização. Se nos reunimos para o culto é porque Cristo nos salvou QUANDO ÉRAMOS PECADORES. A razão do Evangelho são os pecadores. “Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento!”, “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes!” (Lc 5.32,31). Cristo nos amou e nos perdoou. O culto cristão gira em torno dessa mensagem, as Boas Novas. Não há culto se não há pregação do Evangelho.
Paulo lembra aos crentes de Corinto que PROFETIZAR é muito mais importante do que falar em idioma desconhecido, porque profetizar é pregar a Palavra de Deus:  “O que profetiza fala aos homens, edificando, exortando e consolando.” (14.3). Esse é o verdadeiro propósito da profecia. Hoje em dia, muita gente aprendeu a enxergar profecia como adivinhação. Mas a verdade é que, na Bíblia, no Novo Testamento, o uso do dom profético está associado ao anúncio das verdades reveladas por Deus acerca de Si, e não acerca da vida pessoal dos frequentadores da Igreja. Profecia revela a Deus. Profecia não é um show vaidoso da capacidade de alguém de adivinhar eventos sucedidos na vida dos visitantes, e menos ainda a capacidade de adivinhar o seu futuro. Isso é pura ilusão.
Note como Paulo considera o dom da profecia: “Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?” (14.6). Ora, o que vem a ser isso? revelação, ciência ou conhecimento, profecia, e doutrina? São palavras distintas para se referir a diferentes aspectos de uma coisa só: a pregação da Palavra de Deus, o ensino. Esse é o centro do culto cristão, e nenhum outro dom é superior a este. E é por isso que ele diz: “Portanto, irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar!” (14.39).
A pregação, o ensino, é o único meio pelo qual Cristo é anunciado aos pecadores. Cada um pode dizer por si mesmo: uma pessoa só se converte de verdade quando finalmente entende e se comove pela morte de Cristo na cruz, onde se encontra remissão dos pecados. Como é que você soube dessas coisas? Foi pela pregação, pelo ensino da Palavra de Deus. Por isso Paulo enfatiza aos romanos: “E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).
Portanto, quando o pregador anuncia o Reino de Cristo, ao mesmo tempo em que o crente é confortado e animado na sua fé, consolado pela esperança do retorno do Salvador, enquanto o crente é EDIFICADO, então, aquele que ainda não foi salvo ouve o Evangelho, entra em contato com as verdades da cruz, conhece as doutrinas da graça. É na hora da pregação da Bíblia que o incrédulo se torna crente. O uso dos dons espirituais, portanto, devem também ser dirigidos para este fim. O pregador tem que escolher as suas palavras no intuito de atingir o coração do pecador. O músico deve escolher as suas músicas no interesse de fazer o Evangelho compreensível para o visitante.
Mas onde é que Paulo ensinou que o uso dos dons deve ser orientado para o visitante também? Nos versos 23 a 25: “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós.” (14.23-25).
O objetivo, quanto aos visitantes, é que sejam tocados pelo Evangelho, pela exposição profética da Palavra de Deus, e assim, experimentem o novo nascimento. Isso só ocorre quando o visitante vê o poder de Deus através da Bíblia, porque a Bíblia expõe o seu pecado, e expõe a sua culpa, e revela a sua necessidade de um Salvador. Quando o visitante ouve o Evangelho de Cristo, ele é tocado pelo Espírito de Deus, e, então, diz Paulo, prostra-se com a face em terra, adorando a Deus, e testemunhando que Deus está, de fato, no meio dos cristãos. O texto diz que a profecia serve para confrontar o visitante incrédulo e diante disso ele se converte. Por que? (A) por ouvir um adivinhador revelando seus segredos pessoais? ou (B) por ouvir o Evangelho de Cristo, e esse Evangelho expor ao coração do visitante o seu próprio pecado? O que é mais natural se concluir? As pessoas se convertem por que, afinal? O testemunho bíblico é que somos chamados internamente pelo Espírito Santo, quando externamente a Palavra de Deus nos atinge. Isso não tem nada a ver com adivinhação. Não é adivinhação que leva o pecador à salvação.
As fortes emoções provocadas pela ilusão desses pseudoprofetas não são evidência de nada. Até mesmo um humorista de stand up consegue fazer com que seu público se identifique com o que diz no show. Adivinhações não passam de um show mal produzido por um pregador que não tem nada a dizer sobre a Bíblia, e por isso ele faz fofoca pública no meio do culto. Notem que aqueles que se afirmam como profetas na Igreja têm muito pouco pra dizer da Bíblia. Eles precisam fazer revelações porque da Bíblia não entendem. Não nos esqueçamos do que Paulo disse sobre esse ministério: “O que ensina, esmere-se no fazê-lo!” (Rm 12.7). A verdade é que quem tem conhecimento bíblico para levar à Igreja, jamais desperdiçaria o pouco tempo que tem fazendo adivinhações gospel. Assim como, aquele que tem amor e apreço pela Palavra de Deus, quando vem ao culto, não fica admirado com falsos profetas. Quem ama a Palavra de Deus não quer ouvir isso, quer ouvir ensino. Na verdade, ficamos é chateados quando o tempo do culto é dissipado com essa bobagem toda. Quem ama a Escritura Sagrada vem ao culto sedento e desejoso de ouvir a exposição da Escritura.
E o visitante? O não-salvo? O que tem de ser preparado para ele? Show de adivinhações? Não! O Evangelho da Salvação! O dom da profecia, portanto, é a capacidade dada pelo Espírito de Cristo para anunciar fielmente a Palavra de Deus, tanto para a EDIFICAÇÃO dos cristãos como para a EVANGELIZAÇÃO dos pecadores.
A Igreja alcança o propósito do culto cristão
3. ao proclamar o caráter de cristo!
O culto público, o conjunto da obra, é uma mensagem em alto e bom som de quem é o Deus que os cristãos adoram. O culto expressa o caráter do nosso Deus. É dever dos crentes fazer com que a imagem do Senhor Jesus, que é refletida nesse mundo pela Igreja, seja uma imagem gloriosa! O caráter de Cristo é anunciado não só pelo que dizem os seus discípulos, mas também pelo modo como vivem e se comportam nesse mundo, e, também pelo modo como se reúnem, e conduzem as suas reuniões.
O culto público jamais pode ser motivo de vergonha para os crentes. Se ele acontece numa desordem escandalosa, essa vai ser a imagem que se passará do Deus dos cristãos. Não pode ser assim! O caráter de Cristo tem de ser refletido pelo seu povo, como por um espelho. Portanto o povo de Deus, quando se reúne para a adoração, sempre deve prezar por organização, sobriedade, prudência, e moderação. “Porque Deus não é de confusão, e sim de paz.” (14.33). “Tudo, porém, seja feito com decência e ordem.” (14.40). Decência e ordem são características que proclamam o Deus decente e ordeiro a quem cultuamos.
Cristo disse que seríamos zombados e perseguidos pelos incrédulos. Mas a razão da zombaria é o Evangelho, porque nós anunciamos a salvação através de alguém condenado e crucificado pelos romanos. O escárnio vem do Evangelho. Portanto, é vergonhoso e imoral que os crentes sejam amplamente conhecidos por se comportarem como arruaceiros em seus cultos. Se os crentes se comportam como loucos, então a chacota tem razão de ser. O próprio Paulo pergunta: “não dirão, porventura, que estais loucos?” (14.25).
A) O ESPÍRITO DO PROFETA ESTÁ SUJEITO AO PROFETA!
Nesse contexto, o apóstolo Paulo argumenta contra aqueles crentes que justificam o seu comportamento desordeiro no culto colocando a culpa no Espírito Santo. “Ah! Eu fui tomado pelo poder do Espírito, e depois não vi mais nada!” No entanto, segundo a Bíblia, “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas.” E por que? “Porque Deus não é de confusão, e sim de paz.” (14.32-33).
A afirmação do autor aqui serve contra aquele que quer responsabilizar o Espírito Santo pela bagunça do culto. Mas o Espírito não domina ninguém. O Espírito Santo não age como um demônio que assume o controle do corpo humano. Pelo contrário, a presença do Espírito de Deus tem de gerar o fruto do Espírito: domínio próprio, autocontrole (Gl 5.23). Quem tem o Espírito não fica dominado, mas é disciplinado, manso, modesto, equilibrado.
Nos nossos dias você encontra pessoas que, na hora do culto, alegadamente, entram em um estado de êxtase espiritual e começam a tremer, rodar, desmaiar, “cair no Espírito”, correr, pular, dançar, etc. Como se não fosse suficiente, desde 1994, se deu início à chamada Bênção de Toronto, originada numa Igreja no Canadá. Nesse evento, as pessoas imitam os sons de animais, como latidos, miados, grunhidos, rugidos, uivos, cacarejos, etc. Caminham como quadrúpedes, relincham, e são conduzidos por outros crentes por meio de coleiras. Recentemente, a famosa cantora Ana Paula Valadão fez a sua performance durante a gravação de um DVD em Brasília, imitando um leão ao engatinhar no palco.
Afinal, como a Bênção de Toronto se harmoniza com 1 Coríntios 14.33? “Porque Deus não é de confusão, e sim de paz.” Onde está a decência? Quando Paulo disse que Deus não é de confusão, e sim de paz, na verdade, era um argumento contra aqueles que alegam ser dominados pelo Espírito Santo, a tal ponto de perderem a consciência. É visível ou não a incoerência? Tudo é contrário ao ensino da Bíblia! O espírito que atua nesses cultos parece não ser o mesmo Espírito que inspirou a redação das cartas de Paulo, onde se diz, por exemplo, que o espírito do profeta está sujeito ao profeta, ou que o fruto do Espírito não é o descontrole, mas o oposto.
Então, por que os crentes fazem isso tudo no culto? Fazem porque não conhecem a Palavra de Deus, e aprendem esse comportamento leviano por imitação. Cegos sendo guiados por cegos.
B) LIBERDADE PARA VER A CRISTO!
Na tentativa, então, de garantir o direito à bagunça e aos improvisos nos cultos públicos, muitos argumentam citando 2 Coríntios 3.17: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade!”. E os que citam esse versículo pretendem afirmar que se o Espírito está no culto, então Ele tem liberdade para agir. Na verdade, esse é o principal fundamento para se justificar um culto desorganizado. No entanto, quem  utiliza esse verso para esse fim, provavelmente nunca leu os versos precedentes, 14 a 16.
Nessa passagem, Paulo não está ensinando sobre o culto, ou sobre o uso dos dons, ou sobre a liberdade do Espírito para conduzir o culto. Não é isso! Segundo o contexto, a interpretação correta é: onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade, portanto, ali houve libertação, libertação da cegueira que impede uma pessoa de ler a Escritura e enxergar a verdade sobre a salvação em Cristo! É essa liberdade! Quando se ouve um pastor dizer isso no culto, para estimular as pessoas à bagunça, certamente devemos nos lembrar disso: “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”, então, não há mais cegueira espiritual, já houve libertação! A liberdade não é do Espírito, mas do pecador. Onde está o Espírito do Senhor, aí há salvação, porque:
  • é o Espírito Santo quem convence do pecado, da justiça, e do juízo;
  • é o Espírito Santo quem salva;
  • o novo nascimento é o nascimento do Espírito.

Quando lemos a Bíblia, não sofremos da cegueira comum a todas as pessoas, porque temos o Espírito de Deus, portanto temos liberdade, fomos libertos. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há salvação!”
Infelizmente, é muito fácil deixar que paixões e desejos carnais encontrem na Bíblia argumentação aparentemente válida para justificar o comportamento vergonhoso de que estamos falando. Não é do culto que Paulo fala, e sim da experiência pessoal de salvação.
C) O CARÁTER ORDEIRO DO REDENTOR!
Por que, então, manter a ordem no culto? Porque o culto público proclama o caráter de Cristo: ele não é Deus de confusão, e sim de paz. O culto tem de ser conduzido por nós de modo a espelhar esse Cristo que é descente, ordeiro e pacífico. Devemos nos alegrar nos cultos, mas para ser alegres não precisamos ser indecentes e irreverentes. É perfeitamente possível fazer tudo com decência e ordem. O tema já foi esclarecido por Paulo. A nós cabe somente entender e obedecer.
Somente nesses termos, portanto, é possível EDIFICAR e EVANGELIZAR eficientemente. E só com decência e ordem é possível PROCLAMAR com justiça o verdadeiro caráter de Cristo.
Aquelas Igrejas que abrem mão desses princípios oferecem um desserviço ao Reino de Deus, porque elas:
  • não EDIFICAM seus crentes,
  • não EVANGELIZAM seus visitantes,
  • e o caráter de Deus que elas conseguem proclamar é de um “deus” diferente dAquele revelado na Bíblia Sagrada.

D) O NOVO NASCIMENTO GERA PROCLAMADORES DO EVANGELHO!
“Mas as pessoas tem se convertido! Pecadores estão sendo salvos! Isso, afinal, não deveria servir de evidência de que Deus tem aprovado o culto desorganizado?” 
Pois bem! Há muita gente na Igreja, “convertida”, que não consegue dar uma palavra sobre o Evangelho. Isso é um fato! É óbvio que não são todos, e, se são a maioria ou não, é impossível dizer sem uma pesquisa séria. Mas é visível que tem muito crente por aí que não é capaz de proclamar espontaneamente o Evangelho que o salvou. Para piorar, estes mesmos conseguem compartilhar sobre sua fé, mas falando somente a respeito de vitórias que receberam ou de experiências extraordinárias que vivenciaram. A boca fala do que está cheio o coração. Eu respeito aqueles que no exercício de sua espiritualidade obtêm experiências e vitórias, desde que sua boca esteja cheia do Evangelho, e desde que a importância de sua Vitória esteja anos-luz à frente dessas pequenas vitórias.
Nem toda adesão é uma conversão. Os verdadeiros convertidos não glorificam as suas próprias obras e muito menos os seus méritos. Pelo contrário, glorificam a obra da cruz e o Senhor que se sacrificou por eles. Tem muita gente aderindo à Igreja, mas pouca gente nascendo do Espírito, pouca gente passando pelo novo nascimento. Tem muita gente se emocionando com a palavra de adivinhação de um falso profeta, mas pouca gente se comovendo com a cruz pregada pelos verdadeiros ministros do Evangelho. Podem até me criticar por essa posição (certamente muitos vão), mas uma conversão ao final de um culto em que a cruz de Cristo não foi proclamada não é uma conversão cristã. É IMPOSSÍVEL que alguém tenha se convertido sem ouvir acerca da morte e da ressurreição do nosso Senhor Jesus Cristo, sem que tenha sido confrontado pela Lei de Deus, e chamado ao arrependimento de pecados. Salvação só é verdadeira se é pela fé em Cristo e no sacrifício remidor. Do contrário, não passa de uma adesão à Igreja.
Crentes reunidos desperdiçando todo o tempo do culto com um monte de coisas supérfluas sem dizer nada do Evangelho é a moda das igrejas evangélicas.
CONCLUSÃO
O Senhor Jesus Cristo um dia se sacrificou! Foi torturado e moído! Um dia Ele foi humilhado, e as pessoas que se reuniram em torno dele faziam algazarras. No dia da crucificação, muita gente se reuniu por causa de Cristo, mas não foi para adorá-lo e nem para ouvi-lo. Reuniu-se para fazer bagunça.
No culto público, os cristãos fazem diferente. Reúnem-se em torno de Cristo para ouvir a Sua Palavra. O alvo é ser como Maria, que preferiu a melhor parte. O coração do crente arde pela Escritura Sagrada, pelo ensino, pela doutrina. Isso é a verdadeira profecia. No culto cristão celebra-se reverentemente o nome do Senhor, exalta-se Aquele que foi humilhado, e adora-se com decência e ordem Aquele que foi vítima de uma gritaria própria de gente desordeira. Quem se reuniu em torno de Cristo para fazer algazarra foram os inimigos de Deus. Esse fato deveria ser suficiente para que haja reflexão sobre o modo como tem sido realizado o culto em cada comunidade local!
Que se prefira o jeito que Ele exigiu, sem cedermos às paixões pecaminosas que nos assediam. Que não seja do jeito que nos agrada, mas do modo como Ele requer. Façamos tudo, portanto, segundo a vontade dEle. “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36).

quinta-feira, 9 de abril de 2015

QUEM É O DEUS DOS CRISTÃOS?

por Charles Sherlock



“A fé cristã está fundamentada no Deus revelado em e através das Escrituras. O centro e o clímax da apresentação escriturística de Deus é Jesus Cristo. Os cristãos não somente contam com Jesus para lhes ensinar sobre Deus, mas também o reconhecem como seu Senhor, como Deus que veio viver conosco (1Co 12.1-3; Jo 1.1-18). Os cristãos oram em e através de Jesus, encontram perdão para os seus pecados através dele, contam com ele para dirigir sua vida, e até mesmo creem que tudo o que existe envolve a atividade de Cristo (Hb 10.19-25; Cl 1.15-20). Em resumo, Jesus Cristo é 'a imagem do Deus invisível' (Cl 1.15), 'a imagem de Deus' (2Co 4.4), o único ser humano que nos mostra o que é a verdadeira humanidade e a verdadeira divindade. Tratar esse assunto com seriedade tem levado os cristãos a reconhecer que Deus é o tipo de Deus que desde a eternidade podia assumir nossa natureza humana em uma vida pessoal.

[...]

“Esse Pai celestial cuida de todos os seus filhos, é generoso, perdoador, justo e fiel (Mt 6.1-18). Esse quadro contrasta marcadamente com a ideia popular de Deus como distante, uma divindade despreocupada, indiferente às necessidades humanas.

“[...] A fé cristã nomeia Deus como 'Pai, Filho e Espírito', a Trindade Santa. Por isso, o batismo, sinal e selo da identidade cristã, é em (lit.) 'o nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo' (Mt 28.20). Como já foi dito, os cristãos não oram a uma divindade distante, mas em e através de Cristo, no Espírito, ao seu Pai celestial. A natureza do único e verdadeiro Deus é mais profunda, santa e mais bonita do que a divindade plana e descaracterizada que muitas pessoas imaginam com 'Deus'. A unidade divina é mais parecida com a harmonia íntima de uma família ou de um grupo de amigos do que com a semelhança bruta de um bloco de gelo. Somente a respeito desse Deus trinitariano nós podemos dizer: 'Deus é amor' (1Jo 4.16). E quando nós começamos a pensar sobre o ser humano como sendo 'feito à imagem de Deus', essa visão de Deus faz uma grande diferença.”

SHERLOCK, Charles. A Doutrina da Humanidade. Cultura Cristã. pp.19-20.

sábado, 28 de março de 2015

OS DEZ LIVROS QUE TODO CRISTÃO JÁ DEVERIA TER LIDO

John Bunyan (1628-1688)

Não importa se você passou pelo novo nascimento há duas semanas ou se você é um veterano da fé cristã: se você ainda não leu esses livros, deveria colocá-los como sua prioridade:

1
John Bunyan
O Peregrino
1678
2
John Stott
A Cruz de Cristo
1986
3
C. S. Lewis
Cristianismo Puro e Simples
1952
4
John MacArthur
O Evangelho segundo Jesus
1988
5
Lewis Bayly
A Prática da Piedade
1613
6
Martin Lloyd-Jones
Estudos no Sermão do Monte
1959
7
desconhecido
Didaquê
Séc. I
8
John Foxe
O Livro dos Mártires
1563
9
Santo Agostinho
Confissões
398
10
Anthony Hoekema
A Bíblia e o Futuro
1979

É óbvio que a lista acima representa a minha opinião. E eu ficarei feliz se você contribuir com outras sugestões lá embaixo nos comentários. Eu mesmo tenho uma lista com mais 30 títulos daquilo que considero elementar para qualquer cristão, mas a verdade é que eu precisava me concentrar em 10 títulos para tornar o post algo realmente prático. 

Antes que alguém se queixe da ausência de van Groningen, Schaeffer, ou outros igualmente célebres, devo esclarecer que minha pretensão foi sugerir uma meta elementar tanto para um novo convertido como para um presbítero emérito. Além disso, eu precisava compor uma lista com livros que até mesmo alguém com pouco hábito de leitura fosse capaz de compreender o que lê. Não dá pra incluir Dante Alighieri, com a sua Divina Comédia, ou João Calvino com as Institutas da Religião Cristã.

O mais importante é se estabelecer qual é o tipo de leitura com que um bom cristão deve se ocupar. Infelizmente, não é difícil encontrar evangélicos que leem mais de 12 livros por ano, sem sequer conhecer qualquer um dos autores acima. Mas o que é realmente triste é ver gente que já está com a alma repleta dos falsos ensinos de Benny Hinn, T. L. Osborn, Kenneth Hagin, Joyce Meyer, Rebecca Brown, Neuza Itioka, Valnice Milhomens, e tantas outras misérias gospel, e que nunca sequer pensaram em ler livros verdadeiramente cristãos.

Existe também o caso daqueles que não tropeçam em heresias, mas suas leituras se limitam a autores altamente comerciais, tais como Stormie Omartian, Rick Warren, Max Lucado, Silas Malafaia, etc., sem, contudo, nunca terem ouvido falar em John Stott, Martin Lloyd-Jones ou Jonathan Edwards. Isso também é muito triste.

Em resumo: se você nunca leu um livro cristão, aí está um bom começo. E, se você é alguém que lê muito, porém, nada dessa lista, então, já passou da hora de começar.

Por último, por que a Bíblia não está na lista? Eu não me permiti incluir a Bíblia, porque a meu ver seria como igualá-la a livros comuns. É claro que os títulos mencionados são grandes obras da literatura cristã, mas a Bíblia é a revelação divina. Sim, seus autores são humanos, mas foram inspirados pelo Espírito Santo. Por trás dos autores humanos, está o grande e verdadeiro autor da Bíblia, que é o próprio Deus.

Se você é crente, o desejo de ler a Bíblia tem de te consumir, ao ponto que se torne um hábito diário pelo resto de sua vida. Se você é cristão e ainda não faz isso, há sérias razões para você mesmo questionar a autenticidade de sua fé. A Escritura Sagrada é o alimento da nossa alma. Ela não é um mero livro, ela é a Palavra de Deus.

Volte aqui e dê o feedback se você realizar alguma das leituras sugeridas! E que o seu esforço seja recompensado com muito crescimento vindo da parte de Deus!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O PATÉTICO CONCEITO DE HEROÍSMO NA SOCIEDADE FRANCESA DO SÉCULO XXI


Cartunistas ou humoristas não se tornam heróis só porque têm coragem de ofender pessoas que pensam e vivem de um modo distinto do deles. Isso não é heroísmo; é covardia e canalhice. Não acho que isso justifique o assassinato deles, mas eles não passam nem perto de heróis. Tampouco os atiradores!

A repercussão do caso, contudo, está acima do merecido. Em Baga, no estado Borno, na Nigéria, entre 3 e 7 de Janeiro, várias Igrejas cristãs foram queimadas em uma série de ataques do Boko Haram. Segundo a BBC, mais de 2 mil pessoas morreram. Na Nigéria não morreram os atores da imprensa. Não há razão para se inflamar o espírito corporativista.

Tem-se falado muito em desproporção, comparando o poder de canetas com o de armas de fogo. Hipocrisia! Canetas propagam o ódio, e as armas estão a serviço do ódio.

Latuff disse: "Creio que soubessem o vespeiro onde estavam se metendo, mas não esperavam uma reação dessa proporção". Errado! Eles esperavam, sim! Preferiram correr o risco. Não está certo serem mortos por isso. Mas, definitivamente, eles não são heróis... a não ser que você ache um grande ato de heroísmo a publicação de cartoons de Maomé pelado e “de quatro”.

Adão Iturrusgarai disse que "culpar os humoristas por serem atacados é como culpar uma mulher estuprada por ter usado uma roupa provocante”. Ai, socorro! Estou cansado de tanta burrice conveniente! 

domingo, 14 de dezembro de 2014

BOLSONARO E O "ESTUPRO"

por Rodrigo de Sousa


Se Jair Bolsonaro diz que não estupra alguém “porque ela não merece” ele implica algumas coisas. Em primeiro lugar, que o estupro é algo aceitável dentro de certos parâmetros, como, por exemplo, se ele está a fim. Em segundo, que algumas pessoas merecem ser estupradas, como se fosse um privilégio ser estuprada por ele.

Se tentássemos ser graciosos com ele, poderíamos tentar dizer que todo mundo no calor do momento já falou bobagens de que depois se arrependeu (eu já fiz isso). E no caso dele, que dá muitas evidências de ser uma pessoa desequilibrada mental e emocionalmente, poderíamos muito bem usar a justificativa das palavras impensadas.

Mas acontece que ele repetiu as declarações, mesmo com tempo para pensar, para ter o apoio de um assessoria (?), de alguém que o auxiliasse, etc. Poderia ter se desculpado. Mas, não. Ele repetiu, e com orgulho, tudo o que disse. O que só deixa espaço para uma alternativa: o estupro está incluído no universo moral de Bolsonaro. Isto confirma o que sempre pensei sobre ele: Jair Bolsonaro é um homem perverso. Tanto no sentido “clínico” do termo (sofrer de alguma perversão), quanto moral (ele tem uma índole má).

Aqui não se trata de liberdade de expressão, de discussão sobre opiniões políticas, ou visões sobre a sociedade. O que Bolsonaro fez (e faz) é a mais pura e simples apologia do mal. E os que, como ele, confundem discurso de ódio com a "defesa da moral e dos bons costumes", devem sinceramente repensar seus valores.

---------------------------------

Mais uma sobre Bolsonaro (espero que a última, porque não quero perder tempo com esse sujeito). Mas escrevo esta postagem em resposta a comentários à minha postagem anterior. Podem olhar lá para ver o contexto.

Nenhuma pessoa de bom senso precisa das “vias tendenciosas da esquerda” para perceber que Bolsonaro não presta. Basta ver os vídeos ou visitar o Facebook dele. Aliás, tudo que aprendi sobre esse sujeito foi através de compartilhamentos no Facebook de pessoas que o apoiam. Voltemos ao problema aqui. Maria do Rosário foi grosseira e deselegante, faltou com decoro, sim. E ele poderia ter respondido de mil formas: com humor, graça, ironia, sarcasmo, seriedade, autoridade, e até mesmo grosseria. (veja o comentário do Octavio sobre o post anterior para um bom exemplo). Mas tinha que partir pra o lado do estupro? Acho que a “boca fala do que o coração está cheio”, não é? Nos insultos de Maria do Rosário ela o chama de estuprador. Foi errado. Mas pelo menos na fala dela fica implícita a noção de que o estupro é mau e deve ser condenado. Nos insultos de Bolsonaro ele fala que a estupraria se ela merecesse. Na fala dele fica implícita a aprovação do estupro. Será que não se percebe a diferença? Aliás no vídeo ele também dá um “empurrãozinho” nela. Você realmente acha justificável a reação dele? É assim que “cabra macho” deve tratar mulher mesmo?

Me preocupa ver como líderes evangélicos hoje reduziram a luta por uma cosmovisão cristã numa simples batalha entre direita e esquerda e estão dispostos a ver pessoas como Bolsonaro como líderes e modelos. Estão sempre prontos a justificar e defender (mesmo sem querer) qualquer coisa que eles fizerem ou disserem. O discurso ideológico funciona assim, sem capacidade de autocrítica, mas sempre pronto para apontar os erros dos outros. Sempre com uma justificativa ou atenuante para que os “nossos” façam ou digam o que quiserem, mas sem jamais estender esse favor para o outro lado. Os “nossos” falham, os “outros” são do mal. Os “nossos” são complexos, os “outros” pecadores. Os “nossos” falam a verdade, os “outros” são tendenciosos. O discurso ideológico não se preocupa em saber o que é certo ou errado, ou em condenar o mal onde quer que ele esteja, mas sempre busca o argueiro no olho do outro sem perceber a trave no seu.

publicados, respectivamente, em 11 e 12 de Dezembro de 2014 por Rodrigo de Sousa no Facebook

https://www.facebook.com/rodrigo.desousa.370

terça-feira, 18 de novembro de 2014

DIA DE ZUMBI DOS PALMARES


20 de Novembro: 
O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA É REALMENTE NECESSÁRIO?
"Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos."
Malcolm X
Nunca vi alguém defendendo que nós devemos parar de falar sobre pedofilia. "Quem sabe se fingirmos que não existe, a pedofilia um dia acabe..." Ou: "Vamos parar de falar sobre corrupção! Se ela não for mencionada, um dia isso termina..."

O Dia da Consciência Negra não separa os negros dos brancos. Ao invés disso, separa os racistas dos não-racistas. Esse dia é um chamado para não fecharmos os olhos para o mal. E quem é contra esse ideal, ainda que de modo não intencional, termina assumindo um lado. E, infelizmente, é o lado errado!

Toda reação à celebração da cultura e memória afrodescendente não passa da antiga e insistente pressão em favor da capitulação dos negros e de sua consciência. Ninguém critica uma cidade catarinense que celebra sua origem étnico-cultural branca e europeia. Aliás, tais comunidades jamais foram vítimas de opressão na mesma medida em que foram os negros no Brasil (e nem sofrem a perpetuação dessa opressão um século depois da alforria formal), mas ninguém se opõe. Por outro lado, quando alguém diz que 20 de Novembro é Dia da Consciência Negra, há uma reação negativa assustadora, irracional e até violenta.

Não é um dia para "respeitar o negro"! É um dia para não deixar a sociedade se esquecer de que racismo existe e que é uma realidade que tem de ser combatida, especialmente em países como o Brasil em que o racismo é velado e cruel. É um dia para denúncia, para se desmascarar a ilusão de que vivemos numa sociedade igualitária.

A maior prova de que a oposição é dolosa é que as mesmas pessoas que dizem que não devemos fazer caso das raças, são aquelas que se manifestam contra. Ora, se o melhor é esquecer isso tudo e não falar mais no assunto, por que não começam elas mesmas se calando? Não se calam porque têm um lado, e defendem-no com unhas e dentes. Ainda que não queiram, tornam-se militantes. Se o silêncio é o melhor caminho, comecem silenciando a si mesmas.

Será que essas mesmas pessoas são aquelas que orientam mulheres estupradas a se silenciar, esquecer isso e deixar pra lá? Aquele tipo de pessoa que prefere fingir que vive num mundo perfeito, ainda que às custas do inferno pessoal de outros? Afinal, por que existe tanta oposição a um dia em que se celebra a consciência de um povo cujos senhores escravagistas se empenharam ao máximo por anular essa consciência? Isso não parece a tentativa de se perpetuar os mesmos propósitos?

Recentemente, conversando sobre esse assunto com um amigo, quando mencionei as diversas formas que uma pessoa negra ou mulata é vítima de racismo, com bastante ironia, ele me disse: "Acho que não vivemos no mesmo país!". Minha conclusão não poderia ser outra: "De fato, o seu país é o País das Maravilhas, menos o Brasil em que eu vivo!"

Se existe um lugar em que é necessário um dia da consciência negra, esse lugar é o Brasil!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O APARELHO EXCRETOR DE LEVY FIDELIX: A QUESTÃO DA FAMÍLIA


[2ª parte / continuação do artigo anterior: A Questão Política]

Das declarações de Levy Fidelix que fizeram dele o assunto mais comentado da semana, a primeira foi a seguinte:
— Olha, minha filha, tenho sessenta e dois anos. Pelo que eu vi na vida, dois iguais não fazem filho. E digo mais, digo mais: desculpe, mas aparelho excretor não reproduz. É feio dizer isso, mas... 
Fidelix respondia a uma pergunta de Luciana Genro no debate entre os presidenciáveis, e suas palavras não podem ser retiradas do contexto. Luciana disse que todo tipo de união deve ser reconhecida como família. O que Levy Fidelix procurou demonstrar foi seu entendimento de inadequação dessa proposta, visto que dois iguais não se reproduzem. Sendo assim, se há impossibilidade de reprodução, não é uma família. O uso da expressão "aparelho excretor" foi infeliz e de mau gosto. Ele próprio admitiu que é feio se dizer isso. No entanto, por meio dessa frase ele só repetiu a mesma ideia exposta nas palavras anteriores: a relação sexual entre dois homens não tem poder de reprodução. 

Se o dilema está em torno do que é uma família, então devemos compreender esse ponto antes de tudo. A família é um grupo social primário formado por pessoas ligadas por descendência a partir de um ancestral comum, por matrimônio ou por adoção. Se o vínculo existe, então a família está formada. 

Pode-se discordar das leis e práticas vigentes em que solteiros ou pares homossexuais sejam capazes de realizar a adoção de uma criança. Mas, se a adoção foi feita, a família foi constituída. Os opositores não devem lutar contra rótulos. Se há insatisfação com a realidade presente, deve-se combater o direito à adoção antes de tudo. Retroceder na conquista deste direito, contudo, é uma meta praticamente inatingível. 

No passado recente, quando o tema estava em deliberação, tentar impedir esse tipo de adoção pareceu uma iniciativa desumana e ninguém quis comprar essa briga. Quem é que lutaria em favor de que uma criança continuasse num orfanato? Agora, porém, não há contra o que lutar em termos de reconhecimento do que é uma família. Se há um vínculo ancestral, matrimonial ou adotivo, então a família existe.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O APARELHO EXCRETOR DE LEVY FIDELIX: A QUESTÃO POLÍTICA


Levy Fidelix é a bola da vez! Falou demais e agora enfrenta a fúria da sociedade pós-moderna globalista e inclusivista! A frase mais marcante (porém, não a mais grave) foi: "O aparelho excretor não reproduz!"

Será mesmo que ele falou demais, que se precipitou, que não percebeu seus excessos? Evidentemente, esse foi um risco calculado, que ele e sua equipe decidiram assumir. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, e sabia quais seriam as consequências. Fez para atrair holofotes, e atraiu. Engana-se quem pensa que Fidelix pretende ser presidente. Ele não pretende, e nunca pretendeu. Candidatura própria serve para fortalecer o partido, e dar maior fôlego às eleições proporcionais.

Sim, é verdade que Fidelix atraiu antipatia e rejeição. Mas de quem? De quem já não votava nele e no partido dele. Ora, também é verdade que ele conquistou a simpatia de outros tantos. O presidenciável ganha visibilidade na guerra ideológica travada em torno da “homoafetividade”, que tem sido uma das tônicas da presente campanha eleitoral. Ele assumiu um lado, foi enfático, rígido e agressivo. Com isso, a legenda não perde votos; soma. Os eleitores que já desejavam votar nos candidatos do PRTB não deixarão de fazê-lo, afinal, já era sabido que este grupo político desposa os ideais da direita radical. Por outro lado, uma parcela dos eleitores que se identifica ao discurso de Fidelix, decidirá apoiar os candidatos do PRTB nas proporcionais, justamente por causa do referido pronunciamento classificado como homofóbico. No sentido em que a palavra é usada atualmente, sobejam homofóbicos no país. Muita gente se sentiu representada quando ele conclamou os telespectadores: “Vamos ter coragem! Nós somos maioria! Vamos enfrentar essa minoria! Vamos enfrentá-los!”

Polêmicas são o melhor combustível para uma campanha. Os outros nanicos já haviam explorado ao máximo seu direito a voz, fazendo uso de provocações, deboches, e cenas cômicas. Levi Fidelix entrou no jogo. Afinal, qual foi a repercussão do debate? Não se fala de outra coisa!

O episódio do “aparelho excretor”, no entanto, não muda absolutamente nada na eleição presidencial. O objetivo real foi atrair votos que Aécio, Marina e Pastor Everaldo têm puxado para os seus correligionários. A migração de eleitores pode parecer pouco substancial, mas para um partido tão insignificante como o PRTB, qualquer crescimento será significativo. Nos últimos pleitos a legenda fez 2 deputados federais e 10 estaduais (2010), e 16 prefeitos e 420 vereadores (2012). São números baixos. A estratégia escolhida é eficiente: ela soma e não subtrai; ela fortalece o partido, de modo a construir a plataforma necessária para o crescimento futuro. É possível que o tiro saia pela culatra, mas é pouco provável.

Em tempo:

1. Em cerca de duas horas de debate, nenhum candidato fez qualquer pergunta sobre Educação. É notável a preferência em se atingir os eleitores mediante assuntos periféricos de maior visibilidade.

2. Eu pretendia registrar o crédito da observação acima, mas, quando retornei à fonte, fui surpreendido diante do acovardamento do Zero Hora. A pressão da militância intimidou o veículo, e retiraram a referida nota da matéria. Certamente, deve ter sido considerada homofóbica.

3. Ultimamente, tem-se falado muito a respeito do temor generalizado diante da possibilidade de uma “ditadura evangélica” no país. De modo irônico, da parte dos evangélicos não existe essa ambição. A prova disso é o candidato-pastor não conseguir atrair, segundo todas as pesquisas, nem 10% dos votos do eleitorado de origem protestante. Será mesmo que é este grupo social que o brasileiro deve temer? Definitivamente, não são os evangélicos que intimidam e calam seus opositores. Quem faz isso é outro grupo.

4. As considerações do autor sobre os méritos do discurso de Fidelix serão expostas em artigo subsequente.

domingo, 31 de agosto de 2014

A DEMOCRACIA ANTICRISTÃ

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim!"  
João 15.18


Vivemos num tempo de contestação ao Cristianismo! A Europa tornou-se uma sociedade pós-cristã! Os EUA caminham para o mesmo destino! Sob a mesma influência, por aqui, no hemisfério sul, temos sido frequentemente confrontados por aqueles que não só rejeitam a fé, mas se empenham em combater e desacreditar a mensagem do Evangelho. A religião cristã seria antiquada demais para o século XXI.

É notável o ódio com que tais pessoas acusam os cristãos e procuram a todo custo ridicularizar a religião. Mais notável ainda tem sido a recente mobilização dos anticristãos contra os direitos civis dos crentes. A razão é porque os crentes não se deixam persuadir pelos valores da sociedade pós-moderna, recusando-se a abraçar a agenda globalista em favor de uma nova ordem mundial.

Segundo dizem, cristãos podem ser cristãos, desde que sua cosmovisão cristã não embarace o desenvolvimento da sociedade que eles estão construindo. Cristãos podem exercer funções políticas, desde que os valores provenientes de convicções religiosas sejam engavetados. Eles decidiram que o cristianismo deve ser compartimentado. Afinal, é assim que o mundo de hoje vê a fé. E, por que, afinal, os cristãos não podem fazer o mesmo, não é? Cristãos são bem-vindos na política, mas quando fizerem política, sejam um pouco menos cristãos!

Agora, os não-cristãos dizem para os cristãos qual o lugar de sua fé. Convicções religiosas são antidemocráticas. Isso já foi decidido. Não é um assunto a ser debatido. Qualquer proposta de reflexão sobre o tema será automaticamente taxada de uma tentativa de golpe teocrático: “Deus me livre de um Brasil evangélico!”, ou “Deus me livre de um presidente evangélico!”. Irônico nisso tudo é que o candidato a presidência mais caracteristicamente evangélico não possui nem 3% dos votos nas pesquisas de intenção, em um país com mais de 30% de evangélicos. 

A fé, segundo entendem, é útil e virtuosa. Contudo, aqueles que não sabem separar as suas convicções religiosas de sua vida cotidiana devem perder alguns de seus direitos civis. E ainda mais irônico (para não dizer ridículo) é que esse discurso, alegadamente, é em nome da democracia.

Não! Não é em nome da democracia! Sua motivação não é o pensamento moderno e o conhecimento científico, como querem fazer parecer. Não é tampouco em favor das liberdade individuais. Muito pelo contrário. É motivado pela incapacidade de conviver com o contraditório, com aquele que pensa diferente, e que enxerga o mundo com outros olhos. É em favor de um “Cale a boca!” em nada diferente dos já impostos tantas e tantas vezes no passado por regimes autoritários. Não é pela democracia! É conta ela! E é defendido por indivíduos cujo único objetivo é impor suas próprias convicções sobre aqueles que não compartilham delas. Não há nada de novo nisso. Aliás, isso sim, é, por demais, antiquado!

Os cristãos vão continuar lutando pela democracia e pela liberdade, porque esses são valores historicamente defendidos e garantidos por eles. Se o Ocidente é democrático, é graças aos cristãos protestantes. Essa é uma glória que não será esquecida. Já, se o Ocidente quer impor a democracia no Oriente, isso é graças à intolerância dos políticos interessados em money. O espírito protestante não é de perseguição e repressão. Do mesmo modo que é possível pensar em indivíduos e sociedades repressivas protestantes, é igualmente possível fazer o mesmo com muçulmanos, católicos, iluministas, ateus, etc. A repressão não é o espírito do protestantismo, e fazer tal associação é leviano e desonesto. Típico do pensamento preconceituoso.

Anticristãos tentando ensinar aos cristãos o que é ser democrático é uma tremenda de uma piada! Aliás, antes fosse piada! Eles pretendem mesmo é dizer que evangélicos e católicos não podem participar da construção da sociedade de que fazem parte! E, pasmem: isso é pela democracia! Que genial !!! 

A verdade é uma só! Isso já havia sido previsto por Aquele a quem os cristãos servem! E assim os cristãos têm vivido nos últimos dois mil anos: odiados! Pois, que fiquem à vontade! Todo esse ódio, desprezo, pena, e rancor, acompanhados ou não de iniciativas efetivas de repressão e ridicularização da fé cristã, continuará servindo como semente para o Evangelho! "O sangue dos mártires é a semente da Igreja!" (Tertuliano).
"Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós!" (Mateus 5.11).

domingo, 25 de agosto de 2013

O BATISMO DE CRIANÇAS POSSUI ALGUM FUNDAMENTO BÍBLICO?

“Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás.” 
Deuteronômio 12.32


O batismo infantil é um tema controverso para o evangelicalismo brasileiro moderno. Muitos crentes acreditam que esta seja uma característica peculiar do presbiterianismo. Mas, na verdade, a prática de se batizar os infantes está presente em quase todas as tradições cristãs. As exceções mais dignas de serem destacadas são os Batistas e todo movimento evangélico influenciado por eles (no que diz respeito ao ritual do batismo), tais como o Pentecostalismo e o Neopentecostalismo.

Na verdade, recusar o batismo às crianças é um costume relativamente recente na Igreja, já que antes do movimento anabatista não se tem registro de cristãos que assim agissem. Os presbiterianos compreendem que deixar de batizar os filhos dos crentes (ou os menores sob sua guarda) constituiria, sim, em um grave pecado de negligência à ordem bíblica. Para entender, contudo, a razão das Igrejas Presbiterianas preconizarem o batismo de crianças, é necessário conhecer a Teologia da Aliança.

A TEOLOGIA DO PACTO

De acordo com a Teologia do Pacto, Deus estabeleceu a Aliança da Graça com o ser humano decaído, com o objetivo de redimi-lo de sua miséria espiritual. Essa Aliança tem por fundamento legal a Cruz do nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual Deus perdoa e justifica os pecadores que tem fé no Filho de Deus. Contudo, a Aliança foi estabelecida muito antes do evento da crucificação. Para aqueles que são introduzidos na Aliança após a vinda do Messias, exige-se fé na Cruz, um evento histórico testemunhado pelos apóstolos. Quanto àqueles que foram introduzidos antes da vinda do Messias, exigia-se a esperança de que Deus daria cabo definitivamente ao problema do pecado humano, mediante uma solução superior aos rituais provisórios da religião judaica. 

Deus estabeleceu sua Aliança com os homens, oferecendo reconciliação. Sempre foi pela fé, tanto antes como depois da Cruz. Para isso, Ele estabeleceu mediadores desse Pacto, cada um numa época distinta, e sempre num processo de revelação orgânica, progressiva e crescente. Esses mediadores foram:
  • Adão, 
  • Noé, 
  • Abraão, 
  • Moisés, 
  • Davi, 
  • Cristo. 

Os cinco primeiros nomes são mediadores daquela que se chama "antiga dispensação do Pacto". O Senhor Jesus, porém, é o mediador da "nova dispensação do Pacto"; ou, da Nova Aliança.
“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá.” (Jeremias 31.31).
A Nova Aliança não é nova no sentido de que a Antiga tenha sido anulada. Ao invés disso, são uma só e a mesma Aliança, com seis mediadores, duas dispensações, e a Cruz como centro da fé. Cristo é a consumação do Pacto, e se diz “nova” porque, enfim, em Cristo foi revelada de modo completo e cabal. Segundo Hebreus 1, a pessoa de Jesus é o clímax da revelação de Deus. Em Cristo, o ser humano vê a expressão exata e o resplendor da glória do Pai.
“Eu e o Pai somos um” (João 10.30). 
“Quem me vê a mim, vê o Pai” (João 14.9).

A TEOLOGIA DO PACTO E O BATISMO

Uma vez que a Aliança que Deus estabeleceu em Cristo é a mesma Aliança que Deus fez com Abraão, chega-se à conclusão de que toda a Escritura Sagrada, tanto o Antigo como o Novo Testamento são a revelação inspirada de Deus, pela qual Ele orienta e julga o Seu povo. Esta é a Palavra de Deus.

Diante dessa compreensão, a análise de qualquer tema proposto pela Escritura deve ser considerada sempre em sua revelação integral, pois o Pacto não começou em Cristo, nas narrativas dos Evangelhos, mas em Adão, nas narrativas de Gênesis. 

Considere-se abaixo, portanto, a argumentação de como a Bíblia não só permite o pedobatismo, mas o institui.

1. Abraão foi introduzido no Pacto da Graça e selado com um rito sacramental por causa de sua fé pessoal (Gn 15.6; 17.11).

2. Os termos do Pacto da Graça exigiam que todos os meninos recém-nascidos deveriam ser incluídos nesse Pacto, por meio do mesmo rito sacramental por que passou Abraão (Gn 17.13).

3. Nem o judaísmo cria em regeneração sacramental, e nem os pedobatistas o creem. Todos os hebreus foram circuncidados, mas nem todos eram salvos (Rm 2.25-29; Fp 3.2-3). A circuncisão nunca foi garantia de salvação, mas de introdução na família da Aliança. A circuncisão espiritual e verdadeira era a do coração (Lv 26.41; Dt 10.16; Jr 4.4).

4. A ausência de fé dos meninos judeus jamais implicou em prejuízo para o Pacto, para os meninos, ou para seus pais. A única fé relatada na instituição do sacramento foi a de Abraão, de ninguém mais (Gn 15.6). As crianças foram seladas pela fé, mas não a fé delas, e sim a de Abraão.

5. A recusa em cumprir a aplicação do selo caracterizaria negligência e rebeldia, pecado passível de punição severa (Gn 17.14; Êx 4.24-26).

6. O Pacto feito com Abraão, o pai da fé, não foi ab-rogado. A Bíblia testemunha a continuidade do Pacto, e nas mesmas passagens menciona a participação dos filhos dos crentes nesse Pacto (Is 59.20-21; At 2.37-39).

7. Nos termos da antiga dispensação do Pacto, o selo era o ritual da circuncisão; nos termos da nova dispensação do Pacto, o selo é o ritual do batismo (Cl 2.11-12).

8. O ônus da prova neotestamentária não cabe aos pedobatistas, mas aos credobatistas. Isto é, não são os pedobatistas que precisam encontrar uma passagem no NT que ordene o batismo dos infantes; são os credobatistas que precisam apresentar uma passagem no NT que interrompa esse procedimento. A razão é o seguinte princípio hermenêutico: tudo que está previsto no AT continua em pleno vigor, com exceção daquilo em que o NT apresente a descontinuidade. Se o NT se cala quanto à administração do sacramento aos infantes, significa que permanece o que foi especificado no AT.

9. Se a melhor prova bíblica do credobatismo está em Mc 16.16, é imprescindível afirmar que os mais importantes eruditos em manuscritologia concordam (independente se são credo ou pedobatistas) em que o trecho de 16.9-20 não compunha os autógrafos do texto de Marcos.

10. Supondo, porém, que o texto tivesse validade, considere-se:
> O texto de Mc 16.16 não diz respeito a crianças. Ele é uma regra geral, que não contempla todas as exceções. Se ele diz respeito a crianças, também tem de significar que a criança, por não crer, está condenada. Admitir que os casos de exceção estejam incluídos nesse dito, significaria ainda ter de admitir que é impossível a salvação para alguém que não foi batizado.
> O apóstolo Paulo também escreveu: quem não quer trabalhar, também não coma. Poderíamos aplicar esse texto a uma criança? Evidente que não! Porque essa é uma regra geral válida para adultos. O caso das crianças é uma exceção a essa regra. Desse mesmo modo deveria ser compreendida a sentença de Marcos 16.16. (isso, se o texto fizesse parte dos originais gregos).
> Qualquer insistência em afirmar que Mc 16.16 seja uma ordem para a descontinuidade da aplicação do selo, seria uma forçação de barra fora do comum. A intenção autoral não está nem de perto dirigida à discussão do batismo infantil.
11. O Pacto da Graça tem caráter inclusivo, e não o inverso. Na antiga dispensação, as mulheres *não recebiam* o selo; na nova, o recebem (Gl 3.26-29). Na antiga dispensação, os filhos dos crentes *recebiam* o selo; não há razões neotestamentárias para se imaginar que, na nova dispensação, isso devesse ser interrompido.

Mas, afinal, de que adianta argumentar?
"Aquilo que as pessoas não gostam, elas se esforçam para não acreditar." 
(J.C. Ryle).