domingo, 31 de agosto de 2014

A DEMOCRACIA ANTICRISTÃ

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim!"  
João 15.18


Vivemos num tempo de contestação ao Cristianismo! A Europa tornou-se uma sociedade pós-cristã! Os EUA caminham para o mesmo destino! Sob a mesma influência, por aqui, no hemisfério sul, temos sido frequentemente confrontados por aqueles que não só rejeitam a fé, mas se empenham em combater e desacreditar a mensagem do Evangelho. A religião cristã seria antiquada demais para o século XXI.

É notável o ódio com que tais pessoas acusam os cristãos e procuram a todo custo ridicularizar a religião. Mais notável ainda tem sido a recente mobilização dos anticristãos contra os direitos civis dos crentes. A razão é porque os crentes não se deixam persuadir pelos valores da sociedade pós-moderna, recusando-se a abraçar a agenda globalista em favor de uma nova ordem mundial.

Segundo dizem, cristãos podem ser cristãos, desde que sua cosmovisão cristã não embarace o desenvolvimento da sociedade que eles estão construindo. Cristãos podem exercer funções políticas, desde que os valores provenientes de convicções religiosas sejam engavetados. Eles decidiram que o cristianismo deve ser compartimentado. Afinal, é assim que o mundo de hoje vê a fé. E, por que, afinal, os cristãos não podem fazer o mesmo, não é? Cristãos são bem-vindos na política, mas quando fizerem política, sejam um pouco menos cristãos!

Agora, os não-cristãos dizem para os cristãos qual o lugar de sua fé. Convicções religiosas são antidemocráticas. Isso já foi decidido. Não é um assunto a ser debatido. Qualquer proposta de reflexão sobre o tema será automaticamente taxada de uma tentativa de golpe teocrático: “Deus me livre de um Brasil evangélico!”, ou “Deus me livre de um presidente evangélico!”. Irônico nisso tudo é que o candidato a presidência mais caracteristicamente evangélico não possui nem 3% dos votos nas pesquisas de intenção, em um país com mais de 30% de evangélicos. 

A fé, segundo entendem, é útil e virtuosa. Contudo, aqueles que não sabem separar as suas convicções religiosas de sua vida cotidiana devem perder alguns de seus direitos civis. E ainda mais irônico (para não dizer ridículo) é que esse discurso, alegadamente, é em nome da democracia.

Não! Não é em nome da democracia! Sua motivação não é o pensamento moderno e o conhecimento científico, como querem fazer parecer. Não é tampouco em favor das liberdade individuais. Muito pelo contrário. É motivado pela incapacidade de conviver com o contraditório, com aquele que pensa diferente, e que enxerga o mundo com outros olhos. É em favor de um “Cale a boca!” em nada diferente dos já impostos tantas e tantas vezes no passado por regimes autoritários. Não é pela democracia! É conta ela! E é defendido por indivíduos cujo único objetivo é impor suas próprias convicções sobre aqueles que não compartilham delas. Não há nada de novo nisso. Aliás, isso sim, é, por demais, antiquado!

Os cristãos vão continuar lutando pela democracia e pela liberdade, porque esses são valores historicamente defendidos e garantidos por eles. Se o Ocidente é democrático, é graças aos cristãos protestantes. Essa é uma glória que não será esquecida. Já, se o Ocidente quer impor a democracia no Oriente, isso é graças à intolerância dos políticos interessados em money. O espírito protestante não é de perseguição e repressão. Do mesmo modo que é possível pensar em indivíduos e sociedades repressivas protestantes, é igualmente possível fazer o mesmo com muçulmanos, católicos, iluministas, ateus, etc. A repressão não é o espírito do protestantismo, e fazer tal associação é leviano e desonesto. Típico do pensamento preconceituoso.

Anticristãos tentando ensinar aos cristãos o que é ser democrático é uma tremenda de uma piada! Aliás, antes fosse piada! Eles pretendem mesmo é dizer que evangélicos e católicos não podem participar da construção da sociedade de que fazem parte! E, pasmem: isso é pela democracia! Que genial !!! 

A verdade é uma só! Isso já havia sido previsto por Aquele a quem os cristãos servem! E assim os cristãos têm vivido nos últimos dois mil anos: odiados! Pois, que fiquem à vontade! Todo esse ódio, desprezo, pena, e rancor, acompanhados ou não de iniciativas efetivas de repressão e ridicularização da fé cristã, continuará servindo como semente para o Evangelho! "O sangue dos mártires é a semente da Igreja!" (Tertuliano).
"Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós!" (Mateus 5.11).

domingo, 25 de agosto de 2013

O BATISMO DE CRIANÇAS POSSUI ALGUM FUNDAMENTO BÍBLICO?

“Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás.” 
Deuteronômio 12.32


O batismo infantil é um tema controverso para o evangelicalismo brasileiro moderno. Muitos crentes acreditam que esta seja uma característica peculiar do presbiterianismo. Mas, na verdade, a prática de se batizar os infantes está presente em quase todas as tradições cristãs. As exceções mais dignas de serem destacadas são os Batistas e todo movimento evangélico influenciado por eles (no que diz respeito ao ritual do batismo), tais como o Pentecostalismo e o Neopentecostalismo.

Na verdade, recusar o batismo às crianças é um costume relativamente recente na Igreja, já que antes do movimento anabatista não se tem registro de cristãos que assim agissem. Os presbiterianos compreendem que deixar de batizar os filhos dos crentes (ou os menores sob sua guarda) constituiria, sim, em um grave pecado de negligência à ordem bíblica. Para entender, contudo, a razão das Igrejas Presbiterianas preconizarem o batismo de crianças, é necessário conhecer a Teologia da Aliança.

A TEOLOGIA DO PACTO

De acordo com a Teologia do Pacto, Deus estabeleceu a Aliança da Graça com o ser humano decaído, com o objetivo de redimi-lo de sua miséria espiritual. Essa Aliança tem por fundamento legal a Cruz do nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual Deus perdoa e justifica os pecadores que tem fé no Filho de Deus. Contudo, a Aliança foi estabelecida muito antes do evento da crucificação. Para aqueles que são introduzidos na Aliança após a vinda do Messias, exige-se fé na Cruz, um evento histórico testemunhado pelos apóstolos. Quanto àqueles que foram introduzidos antes da vinda do Messias, exigia-se a esperança de que Deus daria cabo definitivamente ao problema do pecado humano, mediante uma solução superior aos rituais provisórios da religião judaica. 

Deus estabeleceu sua Aliança com os homens, oferecendo reconciliação. Sempre foi pela fé, tanto antes como depois da Cruz. Para isso, Ele estabeleceu mediadores desse Pacto, cada um numa época distinta, e sempre num processo de revelação orgânica, progressiva e crescente. Esses mediadores foram:
  • Adão, 
  • Noé, 
  • Abraão, 
  • Moisés, 
  • Davi, 
  • Cristo. 

Os cinco primeiros nomes são mediadores daquela que se chama "antiga dispensação do Pacto". O Senhor Jesus, porém, é o mediador da "nova dispensação do Pacto"; ou, da Nova Aliança.
“Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá.” (Jeremias 31.31).
A Nova Aliança não é nova no sentido de que a Antiga tenha sido anulada. Ao invés disso, são uma só e a mesma Aliança, com seis mediadores, duas dispensações, e a Cruz como centro da fé. Cristo é a consumação do Pacto, e se diz “nova” porque, enfim, em Cristo foi revelada de modo completo e cabal. Segundo Hebreus 1, a pessoa de Jesus é o clímax da revelação de Deus. Em Cristo, o ser humano vê a expressão exata e o resplendor da glória do Pai.
“Eu e o Pai somos um” (João 10.30). 
“Quem me vê a mim, vê o Pai” (João 14.9).

A TEOLOGIA DO PACTO E O BATISMO

Uma vez que a Aliança que Deus estabeleceu em Cristo é a mesma Aliança que Deus fez com Abraão, chega-se à conclusão de que toda a Escritura Sagrada, tanto o Antigo como o Novo Testamento são a revelação inspirada de Deus, pela qual Ele orienta e julga o Seu povo. Esta é a Palavra de Deus.

Diante dessa compreensão, a análise de qualquer tema proposto pela Escritura deve ser considerada sempre em sua revelação integral, pois o Pacto não começou em Cristo, nas narrativas dos Evangelhos, mas em Adão, nas narrativas de Gênesis. 

Considere-se abaixo, portanto, a argumentação de como a Bíblia não só permite o pedobatismo, mas o institui.

1. Abraão foi introduzido no Pacto da Graça e selado com um rito sacramental por causa de sua fé pessoal (Gn 15.6; 17.11).

2. Os termos do Pacto da Graça exigiam que todos os meninos recém-nascidos deveriam ser incluídos nesse Pacto, por meio do mesmo rito sacramental por que passou Abraão (Gn 17.13).

3. Nem o judaísmo cria em regeneração sacramental, e nem os pedobatistas o creem. Todos os hebreus foram circuncidados, mas nem todos eram salvos (Rm 2.25-29; Fp 3.2-3). A circuncisão nunca foi garantia de salvação, mas de introdução na família da Aliança. A circuncisão espiritual e verdadeira era a do coração (Lv 26.41; Dt 10.16; Jr 4.4).

4. A ausência de fé dos meninos judeus jamais implicou em prejuízo para o Pacto, para os meninos, ou para seus pais. A única fé relatada na instituição do sacramento foi a de Abraão, de ninguém mais (Gn 15.6). As crianças foram seladas pela fé, mas não a fé delas, e sim a de Abraão.

5. A recusa em cumprir a aplicação do selo caracterizaria negligência e rebeldia, pecado passível de punição severa (Gn 17.14; Êx 4.24-26).

6. O Pacto feito com Abraão, o pai da fé, não foi ab-rogado. A Bíblia testemunha a continuidade do Pacto, e nas mesmas passagens menciona a participação dos filhos dos crentes nesse Pacto (Is 59.20-21; At 2.37-39).

7. Nos termos da antiga dispensação do Pacto, o selo era o ritual da circuncisão; nos termos da nova dispensação do Pacto, o selo é o ritual do batismo (Cl 2.11-12).

8. O ônus da prova neotestamentária não cabe aos pedobatistas, mas aos credobatistas. Isto é, não são os pedobatistas que precisam encontrar uma passagem no NT que ordene o batismo dos infantes; são os credobatistas que precisam apresentar uma passagem no NT que interrompa esse procedimento. A razão é o seguinte princípio hermenêutico: tudo que está previsto no AT continua em pleno vigor, com exceção daquilo em que o NT apresente a descontinuidade. Se o NT se cala quanto à administração do sacramento aos infantes, significa que permanece o que foi especificado no AT.

9. Se a melhor prova bíblica do credobatismo está em Mc 16.16, é imprescindível afirmar que os mais importantes eruditos em manuscritologia concordam (independente se são credo ou pedobatistas) em que o trecho de 16.9-20 não compunha os autógrafos do texto de Marcos.

10. Supondo, porém, que o texto tivesse validade, considere-se:
> O texto de Mc 16.16 não diz respeito a crianças. Ele é uma regra geral, que não contempla todas as exceções. Se ele diz respeito a crianças, também tem de significar que a criança, por não crer, está condenada. Admitir que os casos de exceção estejam incluídos nesse dito, significaria ainda ter de admitir que é impossível a salvação para alguém que não foi batizado.
> O apóstolo Paulo também escreveu: quem não quer trabalhar, também não coma. Poderíamos aplicar esse texto a uma criança? Evidente que não! Porque essa é uma regra geral válida para adultos. O caso das crianças é uma exceção a essa regra. Desse mesmo modo deveria ser compreendida a sentença de Marcos 16.16. (isso, se o texto fizesse parte dos originais gregos).
> Qualquer insistência em afirmar que Mc 16.16 seja uma ordem para a descontinuidade da aplicação do selo, seria uma forçação de barra fora do comum. A intenção autoral não está nem de perto dirigida à discussão do batismo infantil.
11. O Pacto da Graça tem caráter inclusivo, e não o inverso. Na antiga dispensação, as mulheres *não recebiam* o selo; na nova, o recebem (Gl 3.26-29). Na antiga dispensação, os filhos dos crentes *recebiam* o selo; não há razões neotestamentárias para se imaginar que, na nova dispensação, isso devesse ser interrompido.

Mas, afinal, de que adianta argumentar?
"Aquilo que as pessoas não gostam, elas se esforçam para não acreditar." 
(J.C. Ryle).

terça-feira, 18 de junho de 2013

A REVOLUÇÃO VIRTUAL



Ingenuidade chamar isso tudo de revolução! Como eu gostaria que fosse! Mas a prova de que não é, estará nas urnas da próxima eleição! O que me incomoda não é a agressividade das manifestações, mas sim esse romantismo juvenil.

Alguns me chamarão de pessimista, outros dirão que eu deveria me posicionar a favor do povo. Mas, convenhamos: esse povo é o mesmo que votou e continuará votando com a mesma qualidade (ou melhor, a falta dela). Será que estas pessoas que estão nas ruas são capazes de se lembrar quais foram os candidatos em que votaram no último pleito?

Sou contra a violência da polícia, sou a favor da liberdade de expressão e das manifestações populares. Mas ISSO que está acontecendo nas ruas não é revolução. Revolução altera a realidade, transforma a sociedade, e acima de tudo, muda quem está no poder!

Gostaria de dizer como muitos que tenho orgulho de ser brasileiro, mas terei paciência, esperarei. Em Outubro do ano que vem avaliarei se tenho razões para me orgulhar! Vamos revolucionar! Tenhamos coragem para mudar nossos critérios de voto! Tenhamos coragem de colocar no poder gente do povo que representa o povo! Classe política que nada! O Brasil precisa de políticos da base popular! E eu acho que isso não vai acontecer ainda em 2014! Mas tomara que seja logo!

sábado, 1 de junho de 2013

SECULARIZAÇÃO E ACOMODAÇÃO: Uma Igreja em Declínio



A igreja evangélica no Brasil tem experimentado um momento de grande confusão na sua identidade cristã e na sua tarefa de viver o Evangelho. As razões desse quadro são várias e variadas, contudo, para não prolongar demais, meu objetivo aqui é apontar apenas duas dessas razões: A secularização da igreja e acomodação das Escrituras.

Não é novidade para ninguém que as novidades nos arraiais evangélicos se mostram cada vez mais desejáveis e, porque não, praticáveis a qualquer custo e com status revolucionários. A cada dia experimenta-se um novo conceito teológico, uma nova maneira de interpretar as Escrituras, uma nova “onda” que acaba mudando a vida e comportamento natural da igreja. E tudo isso em virtude da secularização e da acomodação. 

Secularização é a utilização de técnicas seculares para obtenção de resultados espirituais. É um processo de proporções mundiais e não atinge apenas o cristianismo, mas várias religiões. Qualquer religião está sujeita a absorção de elementos externos à sua confessionalidade. 

Ah! É importante aqui fazer menção à diferença entre secularização e secularismo. Secularização é, grosso modo, um processo de absorção de princípios e práticas seculares (alheios ao Evangelho e à Igreja) por parte de seus membros. Geralmente é absorvida e praticada com o fim de obter resultados já confirmados em outras situações. Já o secularismo, é uma filosofia que rejeita toda forma de religião. Um secularista é, portanto, um antirreligioso, enquanto que, um secularizado é um religioso contaminado com o que não lhe é adequado. 

Já que estou definindo alguns termos, passo a definir o que é acomodação. Na teologia este termo ficou conhecido em João Calvino (reformador do séc. XVI) quando este o utilizou para explicar a ação de Deus em tornar sua Palavra acessível ao homem contaminado pelo pecado. Foi a esta possibilidade de acesso que Calvino denominou “acomodação”. Segundo o reformador, só por meio da ação graciosa de Deus o homem poderia ser tocado pelo Espírito Santo a fim de compreender sua revelação especial. 

Bem, tendo definido os termos importantes do texto, passo a descrever como vejo parte da crise vivida pela igreja atual no tocante a sua identidade e sua tarefa: 

A audácia, de fato, tem sido uma das marcas da igreja contemporânea, pois ela tem se tornado um meio para se ultrapassar limites e quebrar paradigmas a muito existentes, inclusive advindos da Reforma Protestante. Como já se sabe, o ser humano é muito criativo, ainda mais quando não se importa com a lei. Assim sendo, ao fazer uso de sua criatividade, não tem se preocupado com o sistema de leis que fora dado por Deus. Aliás, falar de lei na igreja atual tornou-se assunto ofensivo e, portanto, inaceitável (mas isto é assunto para outra hora).

A ausência das Escrituras na formação e execução dos ideais cristãos com certeza representa o maior prejuízo que a igreja tem tido nos últimos tempos. A igreja atual parece estar acostumada aos constrangimentos que tem sofrido em razão de sua postura irreverente diante de Deus e problemática frente à sociedade. A ausência de uma teologia concisa e de um apego sistemático e piedoso com as Escrituras vem deixando-a cada vez mais frágil e, por isso, vulnerável quanto às práticas seculares. Não há uma preocupação com a fiel interpretação da Bíblia e, isto explica o fato de não haver, também, um posicionamento rigoroso que vá de encontro com a secularização eclesiástica. Faz-se necessário um retorno estrutural no qual fique claro que a identidade da igreja está no seu apego às Escrituras.

A mudança estrutural que a igreja precisa não está relacionada aos muitos modelos eclesiásticos de liderança, ou ao aspecto empresarial em que ela tanto se identifica na atualidade, ou ainda ao clima de euforia e extravagância que a tem feito optar por meios tão escusos de se ganhar espaço na mídia em geral. A mudança estrutural aqui sugerida refere-se ao que a igreja atual pensa sobre si mesma. O que ela tem sido, qual o seu verdadeiro propósito, quais são suas funções, qual é a sua origem, a que ela está ligada, o que a sustenta, em que ela deve fundamentar suas escolhas, entre outras.

É verdade que não se pretende aqui ser exaustivo quanto a todos estes pontos, contudo, pretende-se apontar pelo menos os principais motivos e influências que têm feito da igreja um alvo tão fácil de ser atingido pela atual forma de pensamento secularizado. O ponto a ser atingido é a constatação de que a igreja contemporânea não sabe lidar com a sociedade em que está inserida e, por isso, tem sido cada vez mais adulterada de sua forma original. Este quadro me causa preocupação, posto que, não vejo sinais de mudança positiva no mesmo.

Associada a secularização, a prática de acomodação também tem sido um trágico problema na igreja atual. E quem dera se eu estivesse me referindo à acomodação supracitada que fora ensinada por Calvino. A acomodação que se vê nos nossos dias é aquela que, de modo presunçoso, herético e pagão as Escrituras têm sido acomodadas aos projetos humanos. Líderes religiosos (e também membros de igrejas), como que em um movimento em massa, se comprometem com um processo de “reacomodação” da Palavra de Deus. Não contentes com a acomodação graciosa de Deus em nos dar oportunidade de conhecê-lo por sua Palavra, agora se engajam em uma releitura da Bíblia, se valendo de métodos interpretativos subjetivistas e irracionais (que não se sustentam).

Parece-me que, na tentativa de se tornar aceitável e relevante ao homem pós-moderno, a Bíblia tem sido acomodada pelos próprios cristãos, tem sido adaptada às pressões exteriores e ao subjetivismo predominante em nossa geração. Em virtude disso, tem se tornado comum na igreja a adesão a conceitos e costumes seculares que vão de encontro aos conceitos histórico-bíblicos há muito existentes na mesma, resultando em métodos extremistas de evangelização, em comportamentos inadequados em relação à postura do crente no culto e ainda em um afastamento das Escrituras e de seu verdadeiro ensino.

A igreja evangélica brasileira não pode assimilar e assumir essas novas práticas. Ela não pode negociar o conteúdo puro e eficaz das Escrituras em troca da adesão ao conceito pós-moderno que obriga o homem a ser politicamente correto. A única prática de acomodação que, de fato, deve ser aceita por nós é aquela feita pelo próprio Deus, quando em sua imensa misericórdia, acomodou, ou seja, adaptou o conteúdo da sua revelação perfeita a um modelo que possibilitasse a compreensão de todos nós, homens caídos, perdidos e perversos, com o fim de promover a nós a salvação que, de forma alguma, merecíamos.

Diante disso, não podemos em resposta à acomodação maravilhosa que Deus realizou, desprezar a sua bondade. Não podemos tomar a revelação perfeita com o fim de adaptá-la à nossa forma corrupta e imperfeita de viver. Deus não merece rebeldia, mas merece o nosso reconhecimento, o nosso amor, a nossa gratidão, o nosso serviço, a nossa devoção, a nossa fé, a nossa doação e a nossa fidelidade. Pensando nisso, vamos retomar nossa identidade de igreja militante e triunfante, sobretudo entendendo nossa tarefa na grande missão dada à igreja: a de glorificar o nome de Deus em todo tempo, enquanto se vive um cristianismo sob os critérios de Cristo Jesus. Aleluia!

sábado, 18 de maio de 2013

CARTA A UMA JOVEM DECEPCIONADA COM A IGREJA



[O texto a seguir é baseado numa carta real. Por isso, obviamente, o nome do destinatário foi trocado para proteger sua identidade.]

Minha cara Judite, espero que você e sua mãe estejam bem! Fiquei sobremaneira entristecido ao tomar conhecimento de que você decidiu desistir da Igreja. Amigos em comum me disseram sobre você ter se afastado. E, embora eu lamente, não duvido, uma vez que eu já vinha notando que sua decepção institucional era crescente. Lembro-me de suas críticas, e acredito que a razão do seu desapontamento seja o fraco engajamento missionário da Igreja. 

No fundo, acho muito difícil fazer com que você reconsidere essa sua decisão. Mas, pela afeição que lhe tenho, sinto-me no dever de lhe fazer essa admoestação. E, embora eu ache difícil, continuo crendo que para Deus não há nada difícil demais. Por isso mesmo, mantendo a esperança, continuo orando por você.

* * *

Assim como você, entendo que a Igreja de Jesus Cristo possui tarefas urgentes comumente negligenciadas: pregar o evangelho e socorrer os aflitos. Por outro lado, tenho visto muita gente adoecer o conceito de Missão, ao colocar essas tarefas num pedestal como se fossem os únicos serviços que Deus exige de Seu povo.

A Igreja Presbiteriana do Brasil, no texto de sua Constituição, descreve qual a finalidade da instituição. Pessoalmente, gosto muito dessa definição, e a tenho recebido como um bom fundamento do que vem a ser a Missão da Igreja de Jesus Cristo:
“Art.2 - A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar culto a Deus, em espírito e verdade, pregar o Evangelho, batizar os conversos, seus filhos e menores sob sua guarda e ‘ensinar os fiéis a guardar a doutrina e prática das Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, na sua pureza e integridade, bem como promover a aplicação dos princípios de fraternidade cristã e o crescimento de seus membros na graça e no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo’.”
Quem poderia negar que a Igreja tem sobre si todos esses deveres? Veja que, segundo esse entendimento, a evangelização faz parte da Missão, mas não é a Missão. A Igreja não foi formada só para pregar o Evangelho e dar socorro aos aflitos. Aliás, antes disso, a Igreja é chamada para adorar a Deus. Essa é a maior e mais importante razão da existência do povo de Deus.

Na maior parte das vezes, a decisão de se desigrejar se baseia numa má compreensão do que é a Igreja de Cristo. Muita gente tem deixado o convívio dos santos amparados numa eclesiologia mal formada. As ponderações que faço a seguir são, portanto, uma tentativa de expor alguns dos erros conceituais produzidos a partir dessa frequente decepção eclesiástica. 

Esteja certa, Judite, de que, se você assim requerer, estarei disposto a lhe dar maiores esclarecimentos sobre o assunto. Eu gostaria muito mesmo que você me concedesse uma oportunidade para conversarmos pessoalmente.

1º. DEUS É O CRIADOR DA IGREJA

Não fomos nós quem criamos a Igreja. Ela existe por vontade de Deus; e existe quando dois ou três se reúnem no nome do Senhor (Mateus 18.20). Igreja é o povo de Deus, em todos os lugares, tempos e épocas. E isso nos remete ao primeiro casal. Igreja existe desde que existe gente.

Podemos destacar na história da redenção três fases distintas de como Deus se relacionava com seus eleitos. Primeiro, ainda no tempo dos patriarcas (tais como Adão, Enoque, Noé, Jó, Abraão e José), Deus se relacionava com seu povo através de famílias. As famílias da Aliança eram a Igreja de Deus. Depois, através de Moisés, o Senhor reuniu essas famílias numa nação. Ao libertar os hebreus e conduzi-los a Canaã, Deus estabeleceu a nação de Israel como seu povo peculiar. Por último, em Cristo Jesus, Deus mostrou que Israel é muito mais do que uma nação étnica, política e territorial: Israel é o povo do Senhor identificado pela mesma fé que Abraão teve. Deus enxertou os gentios como ramos na Oliveira, tornando povo de Deus aqueles que não eram (Romanos 11; 1 Pedro 2.9-10).

Quem inventou a Igreja foi Deus: todas as pessoas espalhadas pelo mundo que servem a Deus, independente de etnia, cor, nação, ideologia, etc. Esse povo, contudo, é caracterizado por unidade e fraternidade. Foi na Igreja que Deus inseriu cada indivíduo salvo e é ali que ele deve permanecer. Ainda que eventualmente a convivência cause algum desconforto, se é essa a vontade de Deus, o salvo deve obedecer. 

Até mesmo o aspecto institucional da Igreja foi previsto por Jesus Cristo. Em Mateus 18.15-20, Ele ensina como tratar um membro faltoso, dando instruções sobre a disciplina eclesiástica. Nessa passagem, o Senhor não só fala da Igreja como instituição humana, como também demonstra que essa instituição é referendada por Deus.

2º. DEUS GOVERNA SOBRE A IGREJA

Sabe, Judite! Eu também tenho graves preocupações quanto à omissão da Igreja na tarefa de evangelização e ação social. Eu mesmo já me senti decepcionado com a Igreja por várias razões. Sendo composta por humanos pecadores, seria ingenuidade acreditar que essa instituição não falharia. É evidente que há problemas! 

Não sei se você tem conhecimento disso, mas eu e minha esposa já passamos por uma fase muito deprimente na Igreja. Pertencíamos a uma denominação, cujas práticas vinham nos deixando enojados: falta de compromisso com a pregação bíblica, alterações no governo da igreja motivadas pelo G-12, instalação de falsos apóstolos, envolvimento com política eleitoral, cultos públicos que mais vexavam do que glorificavam o nome de Cristo, dentre outras coisas. Fato é que, diante daquilo que julgávamos errado, nunca ficamos calados, e nem paramos de congregar. Sempre protestamos com muito empenho e convicção. Por tudo isso, fomos penalizados: humilharam-nos, fomos tolhidos do direito à defesa, excluídos da denominação, tratados como apóstatas. Fomos perseguidos por causa da justiça.

Essa foi uma grande decepção para nós com a Igreja enquanto instituição. Mas, no final das contas, nunca abandonamos o barco, pois a nossa convicção de que Cristo é o dono da Igreja sempre foi maior. Ele cuida do Seu Corpo, e por mais que tenha coisa errada, devemos sempre nos lembrar de que a Igreja é dEle; que o Senhor Jesus governa. Isso deveria ser suficiente para tranquilizar nossos corações. Ora, se Deus é Soberano, se a Igreja é dEle, e mesmo assim as coisas não andam sempre bem, isso significa que é Ele quem permite que a Igreja caminhe em meio a problemas. E graças a Deus por isso! Pois se fosse um lugar de gente perfeita, não teria espaço para mim.

Podemos, então, ter duas certezas: 1) A Igreja não atingirá a perfeição antes da glorificação, portanto, até lá, continuará com problemas; 2) A Igreja sempre será governada por Cristo, Ele nunca a abandona (Mateus 28.20).

A igreja primitiva também enfrentava problemas, que, hoje, para muitos, serviriam de motivação para deixarem a comunhão. Contudo, a mesma Bíblia que testemunha os inúmeros pecados vivenciados por aquela geração, é que faz a exortação para que permaneçamos firmes congregando:
Não deixemos de reunir-nos como Igreja, segundo o costume de alguns.(Hebreus 10.25). 
3º. DEUS REQUER VIDA CRISTÃ EM COMUNIDADE

Embora seja muito popular a onda do desigrejismo, esse movimento está longe da vontade de Deus revelada na Palavra. Há um chamado para que a Igreja viva como família de Deus, que é. As igrejas locais são comunidades que se organizam socialmente. Existem para pregar o evangelho, sim, mas também existem para viver comunitariamente. Na Bíblia, os crentes são chamados de família de Deus (Efésios 2.19), e de família da fé (Gálatas 6.10).
“Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.” (Atos 2.44-47).
“Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham. Com grande poder os apóstolos continuavam a testemunhar da ressurreição do Senhor Jesus, e grandiosa graça estava sobre todos eles. Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um.” (Atos 4.32-35).
Antes de falar em ação social, e de presença relevante na sociedade, a Igreja precisa de comunhão. Em outras palavras, precisa ser capaz de viver comunitariamente, e de praticar seu cristianismo dentro da família da fé. 

4º. DEUS REQUER ADORAÇÃO EM COMUNIDADE

É verdade que também devemos realizar nossa adoração de modo individual e pessoal (Mateus 6.6), mas a realização de cultos públicos e formais são uma exigência divina, e não mera invenção de pecadores. Do antigo Israel Deus exigiu santas convocações: 
“No oitavo dia convoquem uma assembleia e não façam trabalho algum.” (Números 29:35).
Compare com Êxodo 12.16 e Levítico 23. O povo não via essas obrigações como um peso, mas muito se regozijava no privilégio de participar das convocações solenes (Salmos 35.18; 107;32; 122.1; 149.1). No Novo Testamento, isso não mudou. A exortação bíblica é para que o povo de Deus continue valorizando as reuniões formais da Igreja. Aliás, ainda no Antigo Testamento há profecias de que na Nova Aliança as convocações solenes continuariam tendo o seu lugar:
“E os estrangeiros que se unirem ao Senhor para servi-lo, para amarem o nome do Senhor e para prestar-lhe culto, todos os que guardarem o sábado sem profaná-lo, e que se apegarem à minha aliança, esses eu trarei ao meu santo monte e lhes darei alegria em minha casa de oração. Seus holocaustos e seus sacrifícios serão aceitos em meu altar; pois a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos." (Isaías 56,6-7).
“Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia.” (Hebreus 10.25).
Note, Judite, que existiam desigrejados já primeiro século, mas o autor da carta aos Hebreus afirma que não é esse o comportamento que se espera daqueles que aguardam o retorno de Jesus Cristo. O culto, a comunidade, o cumprimento da missão, tudo, na verdade, deve terminar num objetivo maior: a glória de Deus. 
“Quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1 Coríntios 10.31). 
Se não for para glorificar a Deus, nem a evangelização, nem a ação social têm valor em si. No final, a glória de Deus deve ser o nosso maior intento. Precisamos, então, considerar o que Deus diz a respeito do culto público nas Escrituras, quais são suas exigências, e quais os detalhes acerca de COMO essa adoração pública e comunitária deve ser realizada. 
“Tudo o que eu ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás.” (Deuteronômio 12.32). 
A adoração na Igreja, tal como ordenada por Deus, é indispensável à devoção cristã. Dizer "Prefiro ser crente em casa!" é absolutamente contrário ao ensino da Palavra de Deus.

5º. DEUS CONCEDEU PRIVILÉGIOS ESPIRITUAIS À IGREJA

E, com isso, quero dizer EXCLUSIVAMENTE à Igreja. O dom do Espírito Santo prometido nas Escrituras nunca é mencionado no singular, Judite. Todas as vezes que a Bíblia diz que somos Templo do Espírito Santo, ela fala da comunidade, e implica em que esse privilégio não é real fora da comunidade. 
“Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?” (1 Coríntios 3.16).
Os sacramentos, que são meios de graça instituídos por Cristo, só nos são conferidos pelo ministério da Igreja. E o mais importante, sabemos que a salvação é individual, mas uma das bênçãos da salvação foi o fato de que Deus nos incluiu na Igreja, a fim de vivermos em unidade. 

Na Bíblia, vir a Cristo e à Sua igreja são uma coisa só, não duas. Externamente, nós nos identificamos como pertencendo a Cristo pela profissão da fé diante da Igreja, e na adoração, aprendizado e testemunho contínuos juntamente com a assembleia dos santos (Romanos 10.9-10; Mateus 10.32; Atos 2.41-42; Hebreus 10.25). Fazer parte de Cristo é fazer parte do Corpo de Cristo (1 Coríntios 12.13,27; Romanos 12.5; Efésios 5.29-30). Biblicamente, os cristãos servem a Cristo, não em isolamento autossuficiente, mas como membros vivos do Seu corpo. (Mark Brown e Larry Wilson).

Lembre-se: a Igreja é a noiva de Cristo, e Cristo está preparando essa noiva, mantendo-a pura e imaculada para o dia do casamento. A noiva é dEle, Judite, e é Ele quem garante que ela estará preparada para as Bodas do Cordeiro. Os privilégios espirituais são conferidos àqueles que compõem a Igreja e não a indivíduos isolados. Quando Ele vier, levará consigo a Sua noiva.

6º. DEUS CONCEDEU A TAREFA MISSIONÁRIA À IGREJA

Até mesmo o cumprimento da missão é um privilégio da Igreja. É a Igreja, a instituição inclusive, que foi chamada para o cumprimento da Missão. Qualquer tentativa de realização do chamado de Cristo, que seja à parte da Igreja, não será obediência à grande comissão. Antes, será uma tentativa ultradémodé de reinventar a Igreja separando-se da “cristandade corrupta”. Foi esse o caminho seguido nos dois últimos séculos por muita gente aparentemente bem intencionada, mas que, no final, foi capaz tão-somente de produzir novas seitas heréticas tão perniciosas para a saúde da fé dos crentes.

Sair da Igreja, para realizar sozinho a obra de Deus é absurdamente ilógico. É impossível obedecer à ordem de Cristo (de se fazer discípulos) quando alguém se mantém obstinado contra todas as verdades que foram expostas acima. Trata-se de rebeldia contra a Igreja que Deus criou, governou e continua governando, contra o chamado de Deus para que vivamos e adoremos em comunidade, e contra o claro ensino da Escritura de que os salvos estão na Igreja e que o Espírito de Deus é dado para estes. Seria uma grande hipocrisia alguém tentar obedecer ao “Ide” de Cristo, sendo que mantém o coração endurecido para esses fatos. A evangelização só será bíblica quando os convertidos estiverem matriculados na escola de Cristo e abraçados ao seio da família visível dos crentes (Mateus 28.19-20; 1 Coríntios 12.13; Atos 2.41,47).

Pense no seguinte, Judite: o seu empenho por obedecer a Cristo será mais útil e produtivo quando você incentivar e encorajar a Igreja a se reformar. Tentar, isoladamente, fazer o trabalho que Deus deu à Igreja, não passa de falsa piedade. Quando você, na Igreja, for capaz de convencer os demais a se comprometerem com o desafio missionário, seus esforços serão multiplicados e serão muito mais úteis para o Reino de Deus do que trabalhar fora da Igreja e sem a Igreja.

CONCLUO

Todos esses pontos mencionados devem estar na sua mente, quando você lê Hebreus 10.24-25:
"E consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como Igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajarmos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia."
Lembre-se, Judite: Não tenha fé nos seus próprios esforços! Tenha fé no Deus que pode realizar grandes coisas através desse povo imperfeito que Ele mesmo chamou e reuniu. No final, trata-se justamente disso: fé no poder de Deus. Creia que Deus é capaz de salvar os pecadores. Afinal, eu e você fomos salvos através do ministério dos cristãos que atuaram na Igreja, pela Igreja, e para a glória de Cristo. Mas a salvação, seja a minha ou a sua, é evidenciada, dentre outras coisas, pela persistência do pecador em continuar na Igreja.

Que Deus lhe dê entendimento e sabedoria.
Abraços compadecidos do seu amigo,

Thiago Dancona

terça-feira, 14 de maio de 2013

“QUEM NÃO DEVE NÃO TEME!” SERÁ?

“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade; põem o amargo por doce e o doce, por amargo!”
Isaías 5.20



“Acusação” é o nome de um filme de 1995, dirigido por Mick Jackson. Ele narra um caso ocorrido nos Estados Unidos da década de 1980, onde uma família proprietária de uma escola infantil foi acusada de abuso sexual contra vários alunos. Como é comum em eventos dessa natureza, a partir da denúncia de uma mãe, vários casos vieram à tona. Toda a família McMartin foi presa, desde um jovem rapaz até senhoras idosas. O caso se tornou um escândalo nacional, a família, alvo de uma população indignada, e os acusados permaneceram presos durante o julgamento que se arrastou por anos. Em todo o tempo, a mídia fuzilava a tal família pedófila.¹

Ocorre, no entanto, que a família McMartin não era pedófila. Ao final do julgamento, todos eles foram inocentados. O filme conta sobre como as falsas provas foram levantadas, inclusive através do trabalho de uma psicóloga que induzia as crianças a inventar histórias de abuso. Ficou comprovado pela Justiça que as provas e os testemunhos eram falsos, e que, inclusive, a promotoria decidiu fazer vistas grossas quando percebeu que as evidências eram contraditórias. A família McMartin foi acusada injustamente. Eram, na verdade, pessoas amáveis consagradas à educação infantil. Todas elas, inocentes!

A reflexão que esse filme deveria nos causar é quanto à gravidade e o perigo da opinião pública julgar e condenar pessoas, simplesmente porque a imprensa (que visa lucro) garante que todos os suspeitos sejam previamente julgados e condenados pelo senso comum. A família McMartin é uma demonstração de como o poder da imprensa pode provocar danos irreparáveis a um inocente por toda sua vida. Mesmo que se comprove a inocência de alguém ao final um processo, nada fará com que sua imagem volte a ser como antes. Quem não se lembra do caso da Escola Base na capital paulista? Já se passaram quase 20 anos e as vítimas das falsas acusações pleiteiam indenizações até hoje junto à Justiça. 

É terrível imaginar que, se coisas desse tipo acontecem com pessoas inocentes, isso implica em que qualquer inocente (e isso, obviamente, me inclui) pode passar pelo “linchamento” da mídia, e não haverá compensação judicial que reverta isso, nem mesmo indenizações milionárias. 

“Quem não deve não teme”? Isso não é bem verdade! O filme norte-americano mostra, por exemplo, mulheres idosas sendo torturadas na cadeia, por carcereiras que, influenciadas pela imprensa, acreditavam estar compensando os abusos sofridos por aquelas pobres crianças. De novo: se isso pode acontecer com pessoas inocentes, qual a garantia que tenho de que eu esteja inteiramente protegido do risco de passar por uma situação semelhante?

A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA

Teoricamente, a resposta estaria na Lei. Nascida na Revolução Francesa, a presunção de inocência é uma das mais importantes garantias do Direito. Embora a origem do “in dubio pro reo” possa ser encontrada no direito romano, especialmente por influência do Cristianismo, esse princípio se insere entre os postulados fundamentais que presidiram a reforma do sistema repressivo empreendida pela revolução liberal do século XVIII.² 
1789: "Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei". (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, artigo 9º).
1948: “Toda pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.” (Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo 11º).
1988: "Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória" (Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 5º).
Deste princípio emergem outros de igual importância: o direito à ampla defesa, o direito de se recorrer em liberdade, o duplo grau de jurisdição, o contraditório, entre outros. Em resumo, todos esses princípios constitucionais exercem função de alicerce do sistema justo e democrático, pois no centro de todos os procedimentos judiciais o réu mantém sua integridade, sendo-lhe assegurado o devido processo legal, tornando menores os riscos de uma decisão precipitada do magistrado.³ 

O LINCHAMENTO MORAL DA SOCIEDADE

Mas, convenhamos: de que adiantam as garantias legais diante da Justiça, quando o próprio Direito (na prática) não garante a integridade da imagem da pessoa diante da sociedade? As penas impostas pelo Estado não são a única maneira de um inocente ser prejudicado. Quem tem sua imagem exposta pela mídia, pode ter certeza de uma coisa: nunca mais gozará de paz! 

Teoricamente (de novo), o princípio da presunção da inocência deveria ser aplicado também ao trabalho da imprensa. A maneira como ela se utiliza de seu poderio para noticiar crimes é criminosa. Seguindo o raciocínio das garantias constitucionais, o imputado deveria ser preservado de qualquer tipo de constrangimento, evitando que a sua imagem e sua identidade fossem divulgados durante o processo que incorre contra ele, para se evitar um dano à sua moral. 

A Lei não impede (e nem deveria impedir) a imprensa de trabalhar e noticiar os casos, mas seu trabalho deveria se concentrar em relatar os fatos, sem envolver acusados. E o Estado deveria ser o primeiro a buscar este ideal. Em 2009, quando o jogador Robinho atuava no futebol inglês, teve seu nome exposto pela imprensa inglesa (e, em seguida, a brasileira) como alguém investigado pela Justiça britânica por um caso de abuso sexual contra uma jovem de 18 anos numa boate de Leeds. Contudo, quando os jornalistas brasileiros tentaram tomar conhecimento das denúncias pelos meios oficiais, o máximo que conseguiram foi algo parecido com: "Existe, sim, a denúncia de uma agressão sexual na boate de Leeds, que está sendo investigada, mas nós não podemos revelar o nome do acusado!". Certamente a informação vazou, mas a posição oficial do Estado foi de resguardar a imagem do acusado enquanto não houvesse nada comprovado. No caso de Robinho, o inquérito nem foi aberto.

É verdade que recentemente os jornalistas no Brasil aprenderam a aplicar termos como “suspeito” ou “acusado”, ao invés de "bandido", "assassino" ou coisa pior. Isso, porém, não é suficiente para garantir os direitos constitucionais e a integridade do cidadão. Afinal, nesse país, para o senso comum, ser acusado de um delito não é em nada diferente de ser condenado.

Os McMartin tiveram a vida arruinada pela fúria de sua comunidade e de todo o país, por conta da histeria provocada pela imprensa. Depois de tantos anos expostos na mídia de forma degradante, embora inocentes, eles já não sabiam mais como lidar com a liberdade. E pior, a própria comunidade não era capaz de lidar adequadamente com a comprovação de sua inocência. Para a Justiça, inocentes; para a sociedade, eternamente culpados.

A PRAXIS CRIMINOSA DA IMPRENSA, 
DO ESTADO E DA SOCIEDADE

Durante a semana passada, a atenção de praticamente todos os veículos de comunicação no Brasil se voltou para a prisão de um célebre pastor evangélico no Rio de Janeiro, sob as acusações de lavagem de dinheiro, associação com o tráfico de drogas, estupros, abortos, e homicídios. 

Não pretendo debater a culpa/inocência do indivíduo, e nem acho que se trate de perseguição religiosa, como vi muitos evangélicos alegando. O que foi posto até aqui foi uma argumentação que combate a prática abusiva da denúncia e o excesso de exposição, como um problema generalizado, e não a defesa da inocência de uma pessoa em específico. Aliás, segundo demonstrou a imprensa (indevidamente, reforce-se), o tal pastor parece culpado até o pescoço. Contudo, por mais que seja indevida a forma como tomei conhecimento, o fato é que agora eu sei de muita coisa que eu não deveria saber, como detalhes do processo e, pior, o nome e o rosto do sujeito. Ao menos, até que o caso fosse julgado pela Justiça, a imprensa não poderia expor a imagem do acusado.

Ter direito a um julgamento público não implica em que um julgamento deva ser transformado em espetáculo público, onde o único palhaço é o acusado, devido a seus direitos não terem sido resguardados. Julgamento público é uma garantia de que ele tenha um julgamento justo. A Justiça possui os meios devidos de tornar público um julgamento, e a imprensa jamais pode ser considerada uma parceira para este fim. Os setores da imprensa que investem nisso, não passam de imprensa marrom. Não lhes cabe formar opinião sobre o imputado, ou contribuir para isso, já que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". 

O texto da Lei não pode ser tratado como se fosse uma referência somente ao processo penal. Presunção da inocência é um princípio que protege o inocente de sofrer prejuízos de toda e qualquer espécie. Portanto, ele deve ser aplicado a qualquer sistema que atue contra os direitos dos cidadãos, nesse caso, a imprensa.

O que deveria chamar a atenção não são as acusações contra o pastor, ou as provas noticiadas, mas, por exemplo, o fato da TV Globo estar presente no momento da abordagem da Polícia Civil. Quem a chamou lá? Se ele é ou não culpado, disso a Justiça cuidará. A pergunta-chave é: em que a TV Globo contribuiu com a Justiça cobrindo a prisão desse homem? Na verdade, ela não estava lá pelo senso de justiça, mas pelo furo jornalístico. O furo é desproporcionalmente mais importante do que os direitos individuais do ser humano. Estamos atolados numa cultura que desconhece o caráter desses direitos conquistados através dos séculos.

O “grande público” aprecia por demais as “novelas policiais” transmitidas diariamente pelos telejornais. “Produzir notícias é o nosso negócio!”. Mas, por que razão a imprensa se comportaria eticamente, se nem mesmo o Estado mantém a compostura. Pior do que a Globo estar presente no momento da prisão, são as pessoas a serviço do Estado que a convidaram a se fazer presente. 

Seja com esse pastor, ou com qualquer outro cidadão que passar pela exposição da mídia sob o rótulo de “suspeito”, ao final, as provas podem se mostrar incoerentes, a Justiça pode declará-lo inocente, mas a consciência da sociedade não será mudada. Supondo que o pastor prove sua inocência, alguém acredita que ele teria restituída a sua imagem? É impossível! O Brasil já formou uma opinião sobre ele! A mesma TV Globo não dedicaria para a retratação a mesma quantidade de horas que dedicou à cobertura da prisão, investigações e julgamento. E nem o Delegado do caso estaria tão interessado em dar entrevistas dizendo que errou. 

Ora, ninguém duvidava que a família McMartin fosse culpada de todas aquelas terríveis acusações, mas mesmo assim provou sua inocência. E, apesar disso, sofreu todos os danos inimagináveis: física, emocional e moralmente, por conta da cobertura sensacionalista que a imprensa deu ao caso. Rubin Carter (o “Hurricane”), boxeador americano condenado à prisão perpétua em 1966, por um triplo assassinato, conseguiu provar sua inocência após 19 anos na prisão. Se até mesmo os casos transitados em julgados podem conter falhas e condenar inocentes, muito mais deveria ser o cuidado da sociedade com a imagem daqueles de quem nada se julgou.

Não se faça confusão quanto ao propósito deste artigo. Não se trata do pastor carioca, mas dos direitos civis de qualquer cidadão. Trata-se de direitos humanos! Se ele for um criminoso, que seja punido pela Justiça! Preocupa-me o descaso do Estado e da sociedade quanto à ética da denúncia. É alarmante se notar que ninguém faz o mínimo caso de que a imagem de gente ainda não condenada seja jogada na lama.

É o caso dos populares reposts de redes sociais: fotos de pessoas alegadamente procuradas pela Justiça são publicadas e repostadas incontrolavelmente. Note-se: caso se tratasse de um link que remetesse o leitor para o site da Polícia Federal, por exemplo, seria algo salutar. Mas as pessoas, sem qualquer senso de preocupação, republicam fotos dizendo que aquelas pessoas são pedófilas, espancadoras ou assassinas, sem esse vínculo com uma fonte oficial da Justiça. Mas... e se não for verdade? E se for uma brincadeira de péssimo gosto produzida por uma pessoa que não imaginava que isso repercutiria com tanta proporção? E se for uma falsa acusação proposta anonimamente por um inimigo com intenção real de se vingar? Como saber?? Quem restituirá a integridade da imagem de uma dessas pessoas expostas por todo o país através das páginas do facebook?

CONCLUSÃO

A Lei garante que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". Mas se a imprensa faz com que as pessoas fiquem eternamente manchadas diante da sociedade, então é conclusivo que tais pessoas têm sido não só consideradas culpadas como também penalizadas de fato, e, em alguns poucos casos, a despeito de sua inocência. Carregar esse estigma pelo resto da vida pode ser pior do que cumprir uma pena estipulada por um Juiz.

Se a presunção da inocência é o princípio do Direito que garante a proteção do inocente, deveria ser também um princípio a ser defendido por todo cidadão de bem. Quem se considera boa gente deveria manifestar repúdio ao sensacionalismo de uma imprensa comprometida com “novelas policiais” que nada contribuem para a promoção da justiça.

“Amar ao próximo como a si mesmo” é um princípio nascido na Lei de Moisés, e enfatizado pelo Senhor Jesus Cristo. Ainda mais antigo que esse, é o de Confúcio, porém, em forma negativa: “Não faça aos outros, aquilo que não gostaria que lhe fizessem!” Não é tão difícil! Basta se colocar no lugar do outro, que qualquer pessoa será capaz de perceber o quão grave é o nível de tolerância que nossa sociedade desenvolveu: cada pessoa segue sua vida, sem imaginar que, um dia, poderá ser ela a bola da vez!

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Bibliografia

¹ Juliana Gonçalves. http://amostragemjor.blogspot.com.br/2008/10/resenha-sobre-o-filme-acusao.html

² Gomes Filho, Antonio Magalhães; Presunção de Inocência e Prisão Cautelar; Saraiva; 1991; São Paulo, apud João Paulo Orsini Martinelli, http://jus.com.br/revista/texto/163/presuncao-de-inocencia-e-direito-a-ampla-defesa

³ João Paulo Orsini Martinelli, http://jus.com.br/revista/texto/163/presuncao-de-inocencia-e-direito-a-ampla-defesa

sábado, 4 de maio de 2013

UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE?


Embora muitos crentes manifestem descontentamento com essa doutrina, a resposta é SIM! Aliás, poucas doutrinas são tão fáceis de se comprovar biblicamente quanto esta.

Ultimamente, muitos esforços têm sido empreendidos na tentativa de se provar o contrário. E, não por coincidência, ultimamente, os crentes conhecem muito pouco de Bíblia. No entendimento de muitos deles, essa é uma teologia desmotivadora para a santificação dos crentes. Eles entendem que dizer “uma vez salvo, salvo para sempre!” colocaria em risco a salvação das pessoas, afinal sem santificação ninguém verá a Deus. 

Essa refutação é, na verdade, um sofisma. O erro está em assumir falsos pressupostos. Ninguém vai encontrar um calvinista que trate a santificação como um detalhe supérfluo. 

A dificuldade do arminiano dos tempos atuais está na autojustificação. Para ele, a obediência a Cristo é um mérito humano, ele pensa contribuir para sua salvação (sinergismo). Até se reconhece que a salvação é pela graça, mas acredita-se que a santidade será mantida por meio de esforços pessoais. Essa é uma maneira complicada de enxergar a salvação: “Cristo me salva gratuitamente, mas eu preciso me manter a salvo, com base na minha obediência ao Evangelho”. Para quem pensa desse modo, a salvação é uma conquista humana.

Ocorre, contudo, que o arminiano critica aquilo que não compreende. Fato mesmo é que o próprio arminianismo não vê a santificação sob esta perspectiva. Esta é uma forma de se pensar muito mais católico-romana do que arminiana. O sinergismo do arminianismo reside na fé e não nas obras. Quem ensina que as boas obras contribuem para a salvação é o Vaticano. E o fato dos arminianos defenderem esse negócio só mostra o quão Católica é a alma dos evangélicos no Brasil.

O QUE REALMENTE PENSA O CALVINISMO

A doutrina em questão é conhecida como “Perseverança dos Santos”. Muito mais do que afirmar a segurança da vida eterna, ela afirma a segurança da salvação. O arminiano costuma reduzir "salvação" à Consumação. A conversão seria uma decisão, a vida cristã uma provação, e o dia da morte, esse, sim, o dia da salvação (ou da condenação... rs). Por isso, quando um calvinista diz: “uma vez salvo, salvo para sempre!”, o arminiano entende que isso signifique um tipo de carimbo no passaporte para o céu, que teria efeito garantido independente da santidade.

Para o calvinista, salvação envolve, dentre outras coisas, o Amor de Deus, o Decreto, a Eleição, a Expiação, a União Mística, o Chamado, a Regeneração, o Arrependimento, a Fé, a Adoção, a Justificação, a Glorificação, e a Vida Eterna. Salvação é TUDO isso, e NUNCA ocorre pelas metades. Há, porém, ainda outro item que eu não mencionei intencionalmente, porque desejava destacá-lo: a salvação também inclui a Santificação do crente.

É aí que está o equívoco do anticalvinista, ao dizer que essa doutrina seja um pretexto para o pecado. Ora, se Deus salva um homem, esse homem vai receber o pacote completo da salvação. 
"Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." (Filipenses 1.6).
Nenhum desses elementos é concedido por mérito pessoal, mas sempre de modo gracioso. E é claro que a Santificação está incluída nisso. Um calvinista não precisa ficar se explicando toda vez que afirma as doutrinas da graça, porque é ponto pacífico para ele que os verdadeiros crentes são santificados no momento da conversão, e que vivem em contínua santificação. Isso é fruto da graça divina, e é real para todos os salvos.

Se existe alguém que diz que é crente, mas não vive segundo os planos de Deus, essa é a maior evidência de que sua fé é morta, e que tal pessoa engana-se a si mesma. Não se trata de ser calvinista ou arminiano, trata-se de ser cristão ou hipócrita. 
“Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” (1 João 4.7-8).
“Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo? [...] Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. [...] Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.” (Tiago 2.14,17,26).
A doutrina da “Perseverança dos Santos” não ensina que o salvo pode viver como bem entender. Muito pelo contrário. Ensina que o crente não vive em pecado; e que a salvação SEMPRE é acompanhada de obediência e santificação. Nenhum salvo pensaria que pode viver sua vida distante de Deus, porque o pensar desse modo seria a prova de que jamais foi salvo.

MAS, E AS OBRAS?

As boas obras têm importância, sim, na vida cristã. E o apóstolo Paulo ensina o seu lugar: 
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.” (Efésios 2.8-10).
A graça é a base da salvação. A fé é o seu instrumento. E as obras são o resultado dela. “Criados em Cristo Jesus PARA boas obras”. Não fomos salvos pelas boas obras, mas para as boas obras. Por isso se dizer que as obras não salvam, mas dão evidência de quem é salvo. Esse sempre foi o pensamento dos calvinistas, seja hoje ou antigamente. 
"Quem enxerga na cruz uma licença para continuar pecando, não possui a fé que salva. A marca da fé é a luta contra o pecado." (John Piper).
"A Bíblia não reconhece nenhuma fé que não leva à obediência, nem reconhece qualquer obediência que não brota da fé. Os dois são lados opostos da mesma moeda." (A. W. Tozer). 
"A Bíblia fala de eleição para santificação e de predestinação conforme a imagem do Filho de Deus. Se faltarem estes ingredientes, é perda de tempo falar em eleição." (J. C. Ryle).
"O Senhor Jesus Cristo não leva para o céu ninguém que Ele não tenha santificado na terra." (John Owen). 
"O ponto central enfatizado pelas Escrituras na doutrina da Perseverança é que o verdadeiro cristão mantém-se acreditando e obedecendo, a despeito dos vários problemas que encontra." (Jonathan Edwards).
É por essa e outras que os arminianos frequentemente são tratados com desdém: porque opinam naquilo que desconhecem. Afirmar que um calvinista se sentiria motivado a viver desregradamente é um argumento cômico e juvenil, para não dizer ofensivo. Ser calvinista é não só saber teologia, mas viver a vida cristã de acordo com os desígnios de Deus. Se um crente, calvinista ou arminiano, viver de maneira desregrada, é porque ele nunca foi crente. 

Há muita gente que pensa ser crente, mas nunca nasceu de novo. Há bastante joio espalhado no meio do trigo, e isso não tem a ver com o rótulo teológico que se carrega, mas com um coração regenerado ou não. A doutrina da "Perseverança dos Santos" não é uma marca distintiva nem do joio e nem do trigo. Antes, ela serve para explicar porque algumas pessoas creem e perseveram, enquanto outras tantas creem mas desistem. É porque no primeiro caso a fé é verdadeira, é espiritual, é proveniente do céu. No caso dos desistentes, nunca houve conversão espiritual.

Quando alguém afirma "uma vez salvo, salvo para sempre!" não é uma referência a uma adesão sociológica, nem a filiação a uma igreja, e nem mesmo ao batismo com água. A afirmativa se refere aos salvos, portanto, aqueles que foram atingidos pela graça salvífica.  Como ensinava Jonathan Edwards, "convicção espiritual da verdade surge somente numa pessoa espiritual". 

Este é o testemunho bíblico: Aqueles que foram salvos jamais se perderão. É fácil de se crer, quando sua esperança não está baseada em autojustificação. É o Espírito de Cristo quem garante que eu nunca vou desistir. É pelo poder de Deus que eu continuarei perseverando na fé e na obediência a Deus. Isso é uma certeza, porque quem garante não é o crente, mas Deus. Não crer nessa verdade, por outro lado, seria rejeitar o ensino da Escritura.

Os salvos necessariamente caminham pela estrada da santificação. Nisso, não há variantes. A mesma graça que perdoa pecados é a graça que é poderosa para transformar o caráter. Se alguém acredita que um salvo pode se manter imune às influências dessa divina graça transformadora, este, sim, tem dado provas de que não conhece o poder do Evangelho.

Por tudo isso, com toda certeza devemos dizer, uma vez salvo, salvo para sempre! E que Cristo Jesus seja louvado por sua maravilhosa graça que é tão poderosa para perdoar quanto para santificar! Se alguém defende algo diferente disso, pode ser qualquer coisa, menos calvinista. 

Pense bem: a questão não é se você simpatiza com essa doutrina, mas se esse é o ensino da Palavra de Deus.
“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que tudo; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. (João 10.27-29).
Para mais provas bíblicas, leia
Dt 30.6; Ez 36.27; Jr 32.40; Jo 5.24; Jo 6.29-40; Jo 14.3; Jo 17.2; Rm 5.17; Rm 8.28-30,39; Rm 11.25-29; Rm 14.4; Rm 16.25; 1Co 1.8-9; 1Co 10.13; 2Co 1.22; 2Tm 1.12; Hb 6.17-20; Hb 10.14,23; Hb 13.20-21; 1Pe 1.1-9; 1Pe 5.10; 1Jo 2.19; Jd 1,24.